PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Cigarra e a Formiga


                                                            






A Cigarra e a Formiga

 

Baseada na célebre obra de Esopo

“Quando o canto acaba, o que resta é o silêncio.”

(Frase inspirada em Shakespeare)

 

 

Conta-nos a velha fábula que, em certo dia, encontrando-se uma formiga com uma cigarra, esta lhe perguntou:

 “Para que tanto empenho e tanto trabalho sem sequer um momento de descanso e divertimento...? Vamos celebrar a vida, pois ela é curta — dura menos do que se espera...”

Ao que, de imediato, a formiga respondeu:

“Não... Não podemos nos divertir agora. O inverno se aproxima e será rigoroso e nefasto... É preciso guardar para que tenhamos uma velhice segura.”

A cigarra retrucou: “Mas que absurdo...! Viver pensando na decadência, na senilidade e na inevitável degeneração. Guardar toda a sua economia e pecúlio para gastar com quê...? Com médicos mercenários, bruxos ardilosos, clérigos hipócritas, exéquias, inumações, caixões, tumbas, pompas fúnebres, carpideiras...?! Perdoe-me, cara formiga: a mocidade é breve e grita por liberdade, implora por devaneios, namoricos e aventuras... A vida é como um sopro; quando menos se espera, ela se esvai...”

A formiga balançou a cabeça de forma negativa, com um esgar benevolente e quase lamentoso, e disse à cigarra: “Se pararmos de marchar todo santo dia em busca do pão e do sustento o que será de você...? Como saciarias a tua sede e a tua caótica enomania...? Como te fartarias de guloseimas tendo uma voracidade tal? Somos nós que subsidiamos a tua existência. Somos nós que pagamos a fatura das tuas aberrações etílicas e sustentamos as tuas elucubrações noturnas... O nosso pão, ganho através do nosso suor, é o que te alimenta e te dá força para cantar... O que nos dás em troca?! Apenas o teu canto pueril, aliás... a única coisa para a qual serves.”

E separaram-se quase em litígio os dois insetos.

O tempo passou... O inverno chegou... Inescrupuloso... gélido... empalidecendo toda a natureza... Corpos e mais corpos jaziam nas trilhas. Havia um clima fúnebre no ar... Um cântico de morte ecoava nos ventos impiedosos e invernais.

A cigarra adoeceu... Não podia mais cantar... Tentava..., mas era em vão... Tentava..., mas não conseguia... Sua voz enregelou-se nos desfiladeiros vocais… E seus companheiros de farra, todos mortos nas geladas veredas da floresta.

A formiga foi visitá-la e consigo trouxe alguns gravetos que havia guardado; com a chama destes, tentou aquecer o lar da cigarra.

A cigarra teve uma melhora súbita e entoou seu último canto, belo, mas breve, como tudo que é belo nesta vida... E nunca se ouviu tão lindo canto na floresta; era a nênia triste da despedida ecoando no cantochão melancólico da existência...

E logo após o tenebroso inverno voltaram as formigas às suas tarefas diárias.

Mas a caminhada de repente havia se tornado árdua e mais difícil, sem o canto mavioso da cigarra. O caminho parecia, agora, mais longo... a carga mais pesada... o tempo mais extenso e a monotonia mais voraz...

A formiguinha continuou com seus afazeres, pois o que restava era apenas isso: caminhar... Sem saber para onde isto a levava... caminhar... Pois o mais importante é seguirmos em frente — pouco importa para onde isto nos levar...

Moral da história:

Se a cigarra morreu na miséria, sem afeto e sem remédio,

a formiga morreu de quê...?

Quem sabe de desesperança...

Inanimada, talvez, na apatia sepulcral do tédio...

 

                                                                                                             De Hyppólito (Elsio Poeta)


Texto escrito em 2025