A Cigarra e a Formiga
Baseada na célebre obra de Esopo
“Quando o canto
acaba, o que resta é o silêncio.”
(Frase inspirada em Shakespeare)
Conta-nos a velha
fábula que, em certo dia, encontrando-se uma formiga com uma cigarra, esta lhe
perguntou:
“Para que tanto empenho e tanto trabalho sem
sequer um momento de descanso e divertimento...? Vamos celebrar a vida, pois
ela é curta — dura menos do que se espera...”
Ao que, de imediato,
a formiga respondeu:
“Não... Não podemos
nos divertir agora. O inverno se aproxima e será rigoroso e nefasto... É
preciso guardar para que tenhamos uma velhice segura.”
A cigarra retrucou:
“Mas que absurdo...! Viver pensando na decadência, na senilidade e na
inevitável degeneração. Guardar toda a sua economia e pecúlio para gastar com
quê...? Com médicos mercenários, bruxos ardilosos, clérigos hipócritas,
exéquias, inumações, caixões, tumbas, pompas fúnebres, carpideiras...?! Perdoe-me,
cara formiga: a mocidade é breve e grita por liberdade, implora por devaneios,
namoricos e aventuras... A vida é como um sopro; quando menos se espera, ela se
esvai...”
A formiga balançou a
cabeça de forma negativa, com um esgar benevolente e quase lamentoso, e disse à
cigarra: “Se pararmos de marchar todo santo dia em busca do pão e do sustento o
que será de você...? Como saciarias a tua sede e a tua caótica enomania...?
Como te fartarias de guloseimas tendo uma voracidade tal? Somos nós que
subsidiamos a tua existência. Somos nós que pagamos a fatura das tuas
aberrações etílicas e sustentamos as tuas elucubrações noturnas... O nosso pão,
ganho através do nosso suor, é o que te alimenta e te dá força para cantar... O
que nos dás em troca?! Apenas o teu canto pueril, aliás... a única coisa para a
qual serves.”
E separaram-se quase
em litígio os dois insetos.
O tempo passou... O
inverno chegou... Inescrupuloso... gélido... empalidecendo toda a natureza...
Corpos e mais corpos jaziam nas trilhas. Havia um clima fúnebre no ar... Um
cântico de morte ecoava nos ventos impiedosos e invernais.
A cigarra adoeceu...
Não podia mais cantar... Tentava..., mas era em vão... Tentava..., mas não
conseguia... Sua voz enregelou-se nos desfiladeiros vocais… E seus companheiros
de farra, todos mortos nas geladas veredas da floresta.
A formiga foi
visitá-la e consigo trouxe alguns gravetos que havia guardado; com a chama
destes, tentou aquecer o lar da cigarra.
A cigarra teve uma
melhora súbita e entoou seu último canto, belo, mas breve, como tudo que é belo
nesta vida... E nunca se ouviu tão lindo canto na floresta; era a nênia triste
da despedida ecoando no cantochão melancólico da existência...
E logo após o
tenebroso inverno voltaram as formigas às suas tarefas diárias.
Mas a caminhada de
repente havia se tornado árdua e mais difícil, sem o canto mavioso da cigarra.
O caminho parecia, agora, mais longo... a carga mais pesada... o tempo mais
extenso e a monotonia mais voraz...
A formiguinha
continuou com seus afazeres, pois o que restava era apenas isso: caminhar... Sem
saber para onde isto a levava... caminhar... Pois o mais importante é seguirmos
em frente — pouco importa para onde isto nos levar...
Moral da história:
Se a cigarra morreu
na miséria, sem afeto e sem remédio,
a formiga morreu de
quê...?
Quem sabe de
desesperança...
Inanimada, talvez, na
apatia sepulcral do tédio...
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Texto escrito em 2025