A Dor do Entardecer
“A vida é uma doença incurável.”
Abraham Cowley
À minha mãe
“muito doente”
Ao meu pai “cheio
de fé”
em uma praça calma, a
paz… enfim…
sentada em tua
cadeira, rodeada de afetos,
poderás, feliz,
receber teus netos.
As mágoas foram
esquecidas, feridas cicatrizadas.
Os rancores diluídos,
as dores estancadas.
De más recordações
não mais se fala,
a incerteza do futuro
nada mais abala.
Mas o destino brinca
com o imponderável —
no cenário perfeito,
põe um intruso irremediável.
A paz torna-se,
então, apática… os olhos se fixam no nada.
Teu corpo cede…
pressentindo o fim da estrada…
E ele, “Dom Quixote”,
visionário, cheio de esperança,
avança contra os
moinhos de vento com sua lança
e abate o monstro
gigantesco que te devora…
ele crê…! E como essa
crença me apavora…
Já sonhei assim e
quisera estar ao teu lado,
empunhando a lança, a
esperança, com a fé em riste.
Sou apenas um
cavaleiro miserável e triste…
restam-me apenas
lágrimas no olhar.
Contemplo, inerte, a
dor deste entardecer,
e nesse instante
começo a envelhecer.
Poema escrito em 2002



