O Homem à Beira do Cais
Homem…! Passaste a vida à beira do cais.
Só! Permaneceste no porto, e teus olhos banais, a contemplar idas e vindas, tornaram-se tristes.
Pois tu nunca ficaste… Pois tu nunca partiste…
Só! À beira do cais do porto ficaste a indagar:
sobre os mistérios que as procelas guardariam neste mar; quantos naufrágios, quantos mastros tombados, quantos ideais, quanta esperança, sob a água, sepultados?
Homem…! O que fazes à beira do cais do porto…?
Atracado em ti mesmo, ancorado em um sonho morto?
Este mar que te atrai é o mesmo que te apavora, é o mesmo que te deixa aqui, é o mesmo que te leva embora.
Homem…! Que náufrago te tornaste de ti mesmo, que agora vaga à beira do cais, triste e a esmo.
Por que os segredos do mar perscrutar insistes? Por que não partes? Por que não ficas? Por que desistes…?
Homem…! Um mar limpo e calmo, navegar tu sonhas — e um oceano dentro de ti em convulsões medonhas…
Queres as fronteiras da imensidão azul ultrapassar… e o medo dentro de ti, no porto, a te atracar…
Homem…! Que passaste a vida com receios banais, antes a fúria das águas do que o tédio no cais.
O tempo passou e à beira do porto findaste.
Pois tu nunca partiste… Pois tu nunca ficaste…
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito em meados
de 2003
