PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

sábado, 22 de outubro de 2022

A imagem de meu Pai

 


                                                                                         










Do livro: Contos de Vidas que não Vivi


A imagem de meu Pai


“Para onde fores, Pai, para onde fores,
irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!”

Augusto dos Anjos

  

Me lembro da velha casa em que morei,

a infância ali transcorreu sem dores.

Era uma casa esquisita, cheia (aos meus olhos de criança)

de lugares escondidos num aranhol de corredores.

 

À noite, antes de ir dormir,

sempre via no final de um longo corredor

a imagem de meu Pai sentado à mesa da sala,

a ler, a escrever e, por muitas vezes...

a olhar para o nada...

 

O tempo passou...

a casa foi embora...

com seus corredores empoeirados,

levando junto a imagem de meu pai também...

 

Mas a lembrança da corporatura de meu velho,

sentando e meditando no final do corredor,

permanece em mim até os dias de hoje.

 

Caminho por este mundo

(que para mim tornou-se um claustro),

cheio de dúvidas e de temores,

procurando a imagem enigmática de meu Pai

no final destes longos e intermináveis

corredores...


                                                                    De Hyppólito (Elsio Poeta)

 

Poema escrito em 2022

 

 


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Penitência Tardia

                                                                                        




 Penitência Tardia


“Breve é a loucura, longo o arrependimento.”

 Friedrich Schiller

  

A notícia veio pela manhã: meu irmão não estava bem,

teve um mal súbito e foi internado às pressas.

Cancelei todos os compromissos e segui para o hospital.

 

No trajeto, enquanto caminhava para lá,

pensamentos e recordações povoavam minha mente.

O cofre da memória, então, se abriu...!

E tanta coisa...

recôndita em minha alma, então, surgiu...!

 

Me veio à lembrança um Natal antigo,

nós todos pequenos, em escadinha,

Eu, minha irmã e o caçulinha...

 

Como foi contestável Papai Noel naquele dia,

trazendo em seu ordinário saco a desarmonia:

para mim um lindo carrinho...

para minha irmã uma graciosa boneca...

e para o menor uma lúdica e inútil peteca...!

 

Seus olhinhos se fixavam em meu brinquedo,

e eu, perverso, tripudiava e tinha prazer nisto...

fazendo “vrum” com meu carrinho,

enquanto ele segurava a infame peteca,

sem ter ao menos com quem jogar...

 

O tempo foi passando, a peteca ficou jogada num canto,

empoeirada e esquecida, até que um dia foi parar no lixo...

mas meu lindo carrinho permanecia intacto... intocável...

 

A crueldade infantil é imensurável...

Por muitas e muitas vezes, ele, tadinho...

ficava parado a olhar para o carrinho,

 

com aquela ânsia infantil de pelo menos tocá-lo,

brincar nem que fosse só um pouquinho,

e eu, sórdido, não deixava...

 

Os anos avançaram, cada qual seguiu o seu caminho,

essas lembranças cauterizaram-se em meu cerne.

Não sei se houve reciprocidade em meu irmão...

 

Hoje elas eclodem em mim,

tempestivas e apocalípticas.

É o arrependimento inútil dos culpados,

a metanoia estéril dos delinquentes.

 

O momento chega...

justo e inevitável...!

 

Entro no quarto...

meu irmão volta para mim seus olhos...

observo em seu olhar...

o mesmo brilho daquele fatídico Natal.

 

Pareceu-me até que pedia que não o deixasse partir...

como se a vida fosse aquele brinquedo

que eu não queria dividir...

 

Quis no último instante lhe pedir perdão...

mas os olhos dele já se despediam...

Foi aí então que me veio o desejo absurdo de falar:

“_ Não...! Não vá embora não, querido maninho..!

Eu jogo peteca contigo...

eu deixo você ficar com o carrinho...”


Do livro: Contos de Vidas que não Vivi


                                                                   De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2022

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Cegonha Triste


                                                                                             





Cegonha Triste


“Meu coração, como um cristal, se quebre,

O termômetro negue minha febre,

Torne-se gelo o sangue que me abrasa,

E eu me converta na cegonha triste

Que das ruínas duma casa assiste

Ao desmoronamento de outra casa!”

Augusto dos Anjos

 


Quanto sentimento, quanto amor,

represei no lago escuro de meu peito.

Quantas palavras calei,

pelo simples medo de proferí-las...

 

Quantos amigos perdi,

por não ter tempo para eles,

por não os aceitar como eram,

por não tentar ao menos por um momento,

compreendê-los...

 

Quantos caminhos para mim se abriram,

e eu com medo do desconhecido...

não os percorri...

 

preferindo ficar aqui de rastros...

carregando dentro de mim

a abjeta mediocridade de meu ego.

 

Meus passos travaram...

E na estrada enlameada de minha vida,

Atolei...!

afundado em minha própria insignificância...

 

Tornei-me a “Cegonha Triste” ...

que debruçada sobre si mesma,

contemplou deplorável e silente...

o desmoronamento do seu próprio ser...


                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2022