PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

sábado, 29 de julho de 2017

Asas de Cera





Asas de Cera


                                          “Sendo o Labirinto símbolo do subconsciente, Dédalo e seu filho esforçam-se por escapar da perversão da qual Dédalo, ele próprio, foi o inspirador (o construtor). O intelecto procurando libertar-se do domínio da perversão, esforça-se por reencontrar sua forma sadia, mas a insuficiência dos meios por ele empregados (asas de cera), permite prever o fracasso de sua tentativa.”

Paul Diel, O Simbolismo na Mitologia Grega, p. 51

“Nunca te arrependas da tua queda, ó Ícaro do voo destemido, pois a maior tragédia de todas é nunca sentir a luz ardente.”

Oscar Wilde


“Dédalo construiu o labirinto e depois deu asas de cera ao filho. Assim é o intelecto humano: cria a prisão e oferece a ilusão de fuga.”

“O sol não castiga a ambição — ele apenas revela a fragilidade das asas.”




Qual será o sentido oculto neste labirinto?
para onde irá o homem,
aprisionado em seu próprio instinto?

Aonde achará a saída desta prisão,
com o pensamento ofuscado
pelo sentimento e pela emoção?

“Asas de cera não vão, no céu, te sustentar,
há um mar imenso e ciumento a te mirar…”

Seriam essas asas um meio perfeito de elevação?
Que “Dédalo” hediondo arquitetou para ti esta prisão,
dando-te asas de cera para fugir de meandros vis,
calabouços frios, enigmáticos e sutis?

Perdeste em afetividades a tua mera lucidez,
elevando teus propósitos à pura insensatez,
em tua insanidade, quiseste o céu do mundo,
e o inferno foi se abrindo mais profundo…

“Asas de cera não vão, no céu, te sustentar,
há um imenso deserto a te atrair, a te chamar…”

Teu intelecto é o “Dédalo” construtor desta prisão,
deu-te para dela fugir as inúteis asas da ilusão
que a alma humana, eternamente, vivem a elevar,
a amplidões impossíveis de se alcançar…

“Asas de cera não vão, no céu, te sustentar,
há um imenso pântano, hediondo e tenso,
silenciosamente negro… a te atrair, a te aguardar…”


                                                                   De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2005




Fé Descrente




                                                                                              






Fé Descrente

“Não são gigantes, são moinhos de vento.”

Sancho Pança, Dom Quixote (Miguel de Cervantes)



Sentado à mesa, observo meu filho no tapete a brincar,
deixo-me um pouco… e a ele volto minha atenção.
Há nas mãozinhas dele dois bonecos…
um é o bom… outro é o mau…

Na sua concepção infantil não existe o meio-termo,
um representa o “Bem”, que há de sempre triunfar…
outro representa o “Mal”, que sempre perderá…
Ele sempre me convida para da brincadeira participar…
sempre digo que não posso… Que tenho outros afazeres…
mentira torpe e deslavada...!

A verdade é que não acredito mais em heróis que fazem o bem triunfar…
acredito mais nos vilões que armam ciladas… emboscadas…
nos “Dragões do Mal” que sempre destroem com seu fogo nossos castelos…
na eficiência dos estrategistas hediondos,
a arquitetarem com maestria para nós o dano.

Minha lança do bem...?! Quebrou-se…!
devo tê-la partido quando a enrosquei em algum desses improváveis moinhos de vento...
ou quem sabe…? Rompeu-se com a fúria das rudes procelas...

Por isso, meu filho… ficarei aqui, sentado, a te contemplar…
com mil demônios no meu peito a se confrontarem…
Ficarei mesmo que descrente… crendo…!
Que um dia, ao riso pueril de uma criança,
  toda maldade humana, enfim, sucumbirá…
ao mesmo tempo pressentindo e temendo
a imensa frustração que esta crença me trará.


                                                                                 De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2005



sexta-feira, 28 de julho de 2017

Traje Descartável









Traje Descartável



“Ficam, por toda a vida, as duas vidas
Na mais profunda comunhão estranhas,
No mais completo amor desconhecidas.

E os dois seres, sentindo-se tão perto,
Até num beijo, são duas montanhas
Separadas por léguas de deserto.” 
Olavo Bilac




"Quanto tempo haveremos de caminharmos juntos,
  para no final descobrirmos que estamos sós."



Sou a meia puída, quase furada, esquecida na última gaveta.
Sou o pé de chinelo que do par se perdeu na longa caminhada…
sou, talvez, aquela camiseta surrada… toda furada…
que não tendo nenhuma serventia virou pano de chão...

Sou uma roupa que já não te serve,
aquela que te aperta, que te estrangula…
aquela que não se amolda mais a teu corpo…

Tentas às vezes usá-la, mas ela te frustra…
não se encaixa mais em tua forma augusta,
nem são apropriadas para quem hoje tu és…

São apenas farrapos daquilo que já foi roupa…
que hoje não são mais nada, não valem nada…
     mofaram na gaveta do tempo. Viraram estopa.

                                                                                        De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2017

                                                                                                                       

Namoro no Sofá

 





Namoro no Sofá 

 

 

 

Ainda me lembro… seus pais foram dormir…

E tiveram, naquela noite, sono profundo…

e o velho sofá tornou-se para nós

o lugar mais aconchegante deste mundo.

 

Beijávamo-nos com sofreguidão,

nossas bocas estalavam ruidosas,

minhas mãos lentamente levantaram teu vestido

e encontraram tuas coxas alvas e sedosas.

 

Num débil pudor pediu-me que parasse,

mas elas, desobedientes, te exploravam…

 

Num libidinoso e carnal desatino,

desabotoei-te a blusa de cetim.

Teus seios, túmidos de desejo, revelaram-se…

tinham eles a brancura imaculada do marfim.

 

Teus mamilos róseos e tesos

por meus lábios sedentos… esperavam…

com sofreguidão sorvi-os.

E como se fossem a última esperança

de um soldado no deserto,

regalei meus lábios sequiosos naqueles

úmidos cantis...

 

Não havia mais volta…

Entregamo-nos de vez à insana perversão.

 

E foi nesse momento que ousei um pouco mais…

tirei-te do corpo o último escudo.

E nesse arroubo febril

rasguei sem querer

a sedosa e úmida calcinha...

 

Meus olhos, apressados, percorreram ávidos

o caminho que ia de teus joelhos ao local desejado…

e devo confessar… ficaram extasiados

quando o calabouço, lúbrico de desejo,

revelou-se…

 

E na carnalidade desse doce desatino,

penetrei-te...

como um caçador penetra a selva escura,

sem saber bem o que invade e o que viola,

penetrei-te...

 

Seu corpo sobre o meu

contorcia-se freneticamente,

dobrando-se e elevando-se,

na plenitude famélica do gozo.

 

E foi num contubérnio idílico de sibaritas,

corpos à beira da apetitosa lassidão,

que juntamos ao alto nossos braços tesos

na simultânea intensidade da devassidão…


                                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2017