Fé Descrente
“Não são gigantes, são moinhos de vento.”
Sancho Pança, Dom Quixote (Miguel de Cervantes)
Sentado à mesa,
observo meu filho no tapete a brincar,
deixo-me um pouco…
e a ele volto minha atenção.
Há nas mãozinhas
dele dois bonecos…
um é o bom… outro é
o mau…
Na sua concepção
infantil não existe o meio-termo,
um representa o
“Bem”, que há de sempre triunfar…
outro representa o “Mal”,
que sempre perderá…
Ele sempre me
convida para da brincadeira participar…
sempre digo que não
posso… Que tenho outros afazeres…
mentira torpe e
deslavada...!
A verdade é que não
acredito mais em heróis que fazem o bem triunfar…
acredito mais nos vilões
que armam ciladas… emboscadas…
nos “Dragões do Mal”
que sempre destroem com seu fogo nossos castelos…
na eficiência dos
estrategistas hediondos,
a arquitetarem com maestria para nós o dano.
Minha lança do bem...?!
Quebrou-se…!
devo tê-la partido
quando a enrosquei em algum desses improváveis moinhos de vento...
ou quem sabe…? Rompeu-se
com a fúria das rudes procelas...
Por isso, meu
filho… ficarei aqui, sentado, a te contemplar…
com mil demônios no
meu peito a se confrontarem…
Ficarei mesmo que
descrente… crendo…!
Que um dia, ao riso
pueril de uma criança,
toda maldade humana, enfim, sucumbirá…
ao mesmo tempo
pressentindo e temendo
a imensa frustração que esta crença me trará.
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito em 2005

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