O
Último Olhar
O
olhar despede mais chama
no instante da despedida.
E é na renúncia que se ama
mais intensamente a vida.
Stefan Zweig
O que
há no último olhar...?
Compreensão...? Revolta...? Esperança...? Desespero...?
Te
pergunto, querida Mãe:
Para
onde olhaste no instante derradeiro?
Teria
sido para uma pedra inamovível,
A segurar papéis inúteis sobre alguma mesa?
Ou, quem sabe..., para uma borboleta...
Que se
debatia com sofreguidão contra uma vidraça...
Tentando, inutilmente, fugir daquele ambiente cáustico
onde a
morte exalava seu cheiro acre e modorrento?
Tentando
atingir... quem sabe...?
O
lindo jardim que tanto ansiava,
e que, reluzente, a aguardava
para
além das visões vítreas da existência...?
O que
há no último olhar...?
Querido
e saudoso Pai...
Altivez...? Paixão...? Resiliência...?
Ou, quem sabe..., a alegria, a perspectiva
de
novos mundos finalmente conhecer...
e de deixar, enfim, este tedioso porto chamado vida?
Diga-me, querido Pai...
Onde
pousaste teu último olhar...?
Teria
sido, talvez, em um “insensato” besouro...?
a lutar
em vão contra uma lâmpada,
Como
se quisesse, alucinadamente, a luz penetrar...?
Ou, quem sabe..., para algum bicho rastejante
que
tentava escapulir incólume e sem sequelas
de pés
incautos e despreparados...?
Eu
comparo a dor do último olhar à dor do primeiro...
São
quase idênticos...
Em
ambos há medo e pavor do desconhecido.
Em
ambos, luz... sombras... e uma dor imensurável...
Uma
sensação análoga à que teve Lázaro ao voltar à vida.
O que
haverá no meu último olhar?
Dor...? Remorso...? Desânimo...? Penitência...?
Quem sabe
a relutância em assumir tantos erros cometidos
e a
vergonha de meu acanhamento pusilânime diante da vida?
A
mim... Se me fosse permitido escolher,
onde
pousaria meu último olhar.
Escolheria
pousar estes meus desvanecidos olhos...
naqueles
olhos que deram sentido à minha existência,
naqueles
olhos que desvendaram para mim
o
sentido do amor, da reciprocidade e da entrega.
E
poder, no extremo instante, dizer-lhes:
“Nunca
morrer assim! Nunca morrer num dia
assim! de um sol assim!...” *
De Hyppólito (Elsio Poeta)
*Olavo Bilac - In Extremis (Excerto)
Poema escrito em 2025
