A Última Estação
Por ocasião da morte de meu Pai
(1927–2016)
E saí para ver a natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao céu!
Augusto dos Anjos
Eis que o trem vem
chegando lentamente à sua última estação.
Vem carregado de
lembranças e de paisagens esquecidas,
vem sem pressa
singrando um mar de trilhos silenciosos,
deixando para trás, pouco a pouco, as cores da vida…
Há neste trem tantos
vagões atrelados
e nestes vagões tão
pouco espaço…
Que não caberiam neles,
de forma alguma,
a imensidão de nossos
medos e cansaços…
E o comboio doloroso,
celeremente devagar, avança…
e há nessa lentidão
tanta pressa de se chegar ao destino,
que de suas rodas
saem faíscas e as dormentes dos trilhos
ígneas se abrasam e, desestruturadas, soltam seus pinos.
O trem vacila e na
extrema curva quase tomba…
mas o condutor é
hábil, na linha o mantém com maestria
e o recompõe ao seu
caminho. E o trem avança…!
levando agora um peso
a mais, o de nossa dor… de nossa agonia…
E nós… egoístas,
pedimos aos céus que a última estação
não seja a próxima… que seja outra e que a outra seja distante…
mas não somos nós que
decidimos… não temos este poder…
e o trem avança para a derradeira estação e na vagarosidade de um instante…
para na última estância. Na plataforma seres convulsos o aguardam…
Desligam-se as
engrenagens e, num encanto de alavanca… o trem estanca…
o som do último apito
por um céu coberto de aflições… se alastra…
é a voz do tempo
silenciando a vida numa doçura repleta de aceitação,
é a voz de Deus, no
ponto final, dizendo… Basta…!
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito em 2016
