PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Última Estação



                                                                                    






A Última Estação

Por ocasião da morte de meu Pai
(1927–2016)


 E saí para ver a natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao céu!
                                                                                                                                   
                                                                                                                                                                             Augusto dos Anjos




Eis que o trem vem chegando lentamente à sua última estação.
Vem carregado de lembranças e de paisagens esquecidas,
vem sem pressa singrando um mar de trilhos silenciosos,
deixando para trás, pouco a pouco, as cores da vida…


Há neste trem tantos vagões atrelados
e nestes vagões tão pouco espaço…
Que não caberiam neles, de forma alguma,
a imensidão de nossos medos e cansaços…


E o comboio doloroso, celeremente devagar, avança…
e há nessa lentidão tanta pressa de se chegar ao destino,
que de suas rodas saem faíscas e as dormentes dos trilhos
ígneas se abrasam e, desestruturadas, soltam seus pinos.


O trem vacila e na extrema curva quase tomba…
mas o condutor é hábil, na linha o mantém com maestria
e o recompõe ao seu caminho. E o trem avança…!
levando agora um peso a mais, o de nossa dor… de nossa agonia…


E nós… egoístas, pedimos aos céus que a última estação
não seja a próxima… que seja outra e que a outra seja distante…
mas não somos nós que decidimos… não temos este poder…
e o trem avança para a derradeira estação e na vagarosidade de um instante…
para na última estância. Na plataforma seres convulsos o aguardam…


Desligam-se as engrenagens e, num encanto de alavanca… o trem estanca…
o som do último apito por um céu coberto de aflições… se alastra…
é a voz do tempo silenciando a vida numa doçura repleta de aceitação,
é a voz de Deus, no ponto final, dizendo… Basta…!


                                                                                       De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2016