PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

terça-feira, 29 de abril de 2008

Tentações Noturnas

                                                                                        



Tentações Noturnas


“Quando o santo se torna humano, o humano se torna blasfemo”



Em convulsões noturnas, o padre não dormia.
Em tentações satânicas, a fé lhe faltava…
E ele, em dúvidas cruéis, se consumia.

Levantou-se! E então, perante a imagem,
Ajoelhou-se e, com fervor, pedia
Que lhe devolvesse a paz, a fé e a coragem.

E, pegando-a nos braços, com desespero a beijou,
Ao contato, seus lábios congelaram.
Então, daquele pedaço de gesso…duvidou.

Abriu a porta da rua e, contra o céu, gritou:
Maldita seja esta imagem inerte!”
E, na sarjeta, o crucifixo ele quebrou…


                                              De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema composto nos anos 80

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Dor...!

                                                                              




Dor…!

 

“Amoldar-se à Dor é vencê-la” (Menotti Del Picchia)

 

Poesia feita para a Tese de Mestrado da Psicóloga Andréa Santarelli Alves (minha esposa) “A repercussão da dinâmica familiar na sintomatologia da fibromialgia”.

De uma paciente fibromiálgica: “Uma coisa é você imaginar uma dor, outra é você sentir os limites dessa dor, ter uma relação íntima com ela.”

 

Quem és, “Dor”? Qual será teu significado?

Por que sorrateiramente invades meus espaços,

e sobre meu corpo estendes teus tentáculos difusos,

flagelando-o em desacreditadas queixas,

subjugando-o em telúricas paisagens?


Pudesse eu descrever-te em palavras, mas… estas me fogem,

pois estás além do limite de meu corpo e de minha mente.

És, talvez, o espectro que silenciosamente assombra em meus umbrais,

ditando tediosamente, dentro de mim, as penas de minha existência.


Quem és, “Dor”? Por que insistes em me tocar, em me possuir,

passando noites a questionar-me sobre a inutilidade dos remédios?

Por que velas meu sono assim tão ciumenta,

erotizando meu corpo em gemidos lancinantes,

legitimando nele o sofrimento?


Por que me encarceras em teus calabouços,

sob o jugo de estereótipos infamantes?

Por que me acorrentas a tantos rótulos,

estigmatizando-me em histéricas loucuras?


Quem és, “Dor”? Por que me acuas no temor do desconhecido?

É chegada a hora de assumir todas as minhas heranças,

de quebrar todos os “totens e tabus”,

de encarar enfim esta “Medusa”

e petrificar em mim todos os medos.


Sou a Maria das Dores… Sou aquela que passa e ninguém vê…

Meu corpo, por pontos dolorosos, é formado.

Cada gesto meu é uma dor que se exterioriza.

Eu sou o reflexo de um espelho que se antagoniza

na incredibilidade do que reflete.


Sim…! Sou a Maria das Dores… Aquela que passa e ninguém vê…

Aquela que sofre, mas… ninguém crê…


                                                                                        De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2005

Há algo em meu passado

                                                                             

                                                                                          







Há algo em meu passado


“Superar os fantasmas do passado não é esquecer o que aconteceu,

mas impedir que o que passou dite o ritmo do que está por vir.”

Valdir Enéas Mororó Junior




Há algo em meu passado, reclamando uma lembrança...
Algo que, inconformado com o esquecimento,
pede ao menos uma lágrima… um sofrimento…

Há algo que se move em meu passado…
que não se atenua com o tempo.
Algo que já estava em mim… latente…
Algo que insiste em doer… em doer… somente.

Há algo em meu passado… que protesta…
que se ergue, voraz, em meus dias de agora.
Que me assombra com fantasmas de outrora.

Há algo que se ulcera em meu passado…
que me faz regurgitar mágoas esquecidas…
Coisas que andei sepultando pela vida.

Há algo em meu passado que me cobra…
Algo que me empobrece… que me onera…

Há algo mendicante em meu passado…
Algo que, de vis andrajos, me veste,

Há algo em meu passado, não resolvido…
Um anátema hediondo que não se desfaz…

Há algo de nefasto em meu passado…
que mata aos poucos em mim toda esperança.
Algo que pede, talvez…, um sofrimento… uma lembrança…


                                                            De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2003




Quatro Estações



                                                                                                




 Quatro Estações


“O tempo não passa; ele nos atravessa.”
Clarice Lispector

A infância é o único tempo em que o mundo cabe inteiro na mão.

Rubem Alves




Já vai longe a primavera… os campos verdejantes…
Onde a criança brincava. O céu azul… inebriante…
Flores brotando, ramalhetes de sonho infantil
perfumando de alegria a crença pueril.


Tempo de paz… um lago calmo… rara beleza…
Os frutos doces, cantigas de roda, “as malvadezas”.
O horizonte vasto, sem fronteiras.
A mãe, zelosa, dando as broncas corriqueiras.


Os dias eram longos. As alegrias, também…
O choro era breve… nosso riso ia mais além…
Tínhamos esperança e dos sonhos a amplidão.
E tudo isso cabia na palma de nossa mão.


Já vai longe o verão! Campos em chamas…
Onde o jovem se abrasa. Ígneo, o céu se inflama.
Paixões brotando em buquês, desejos juvenis
perfumando o ar libidinoso de arroubos e desvarios.


Tempo do amor…! Um mar em fúria…! O templo da beleza…!
Corpos em êxtase, canções promíscuas, “as safadezas”.
O horizonte amplo, sem fronteiras.
E a mesma mãe, ciosa, a nos falar “asneiras”.


Os dias eram intensos. Os prazeres, também…
O pranto efêmero… nosso gozo ia mais além…
Tínhamos vigor, a energia fluía de nossas mãos.
E toda essa força cabia em nosso coração.


Já vem chegando o outono…! Campos pelo vento açoitados.
Onde o homem cisma. Gris, o céu parece desbotado.
Flores murchando, o medo brotando em buquês…
Um cheiro agridoce a nos encher de dúvidas e porquês...


O tempo é rápido…! Um mar que oscila na incerteza…!
O corpo se exaure na instável correnteza.
O horizonte vai se fechando. Ao longe… as fronteiras.
E a mãe, ausente, suas palavras sábias e verdadeiras.


Os dias passam céleres. As venturas, também…
O choro prolonga-se… a dor vai mais além…
O vigor se esvai… escapa pela nossa mão…
E toda essa angústia cabe em nosso coração.


O inverno se aproxima…! Campos de geada cobertos.
Onde o velho decai. Cinéreo o céu, o pôr do sol deserto…
Folhas secas num ramalhete de flores estioladas.
Um cheiro acre a perfumar a alma cansada.


O tempo para… um pântano estagnado na imundície…
Os frutos bichados, nênias ao vento, “as caduquices”.
O horizonte não mais se avista. Superamos todas as fronteiras.
A mãe saudosa chama! É a viagem derradeira…


Os dias passam lentos. A agonia, também…
O riso se estanca… o tédio vai um pouco mais além…
Os tempos idos trazem luz e trevas ao coração.
E tanta vida, longe, fora do alcance de nossa mão…

                                                                                                             De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2003



Leão Vencido

                                                                                 
                                                                                                                                                       





Leão Vencido


“Os tronos caem, os reis morrem, o tempo permanece”



De cima do monte, Velho Leão,
contemplas a vastidão da selva, solitário.
Sim, jovens leões, vorazes se aproximam!
Sim, já não temem o Velho Rei!


Eles vêm com audácia e arrogância de mancebos,
trazem força, garra e coragem em si.
Vêm urinando em tuas demarcações
e, incontinentes, avançam sobre teu harém.


E tu, Velho Leão, tentas soltar o último urro,
urro que soa fraco… quase um lamento.
E há nesse urro tanta entrega… consentimento.


Silencioso e cabisbaixo, desces a velha montanha,
deixando todo o teu reino para trás.
Lá embaixo, a imensa savana, tórrida de sol, te aguarda.


Os antílopes ainda te temem e, lépidos, tentam se safar,
mas tu não tens força nem para caminhar,
quanto mais para correr, quanto mais para caçar.


Sob o sol escaldante, encontras uma carniça.
Dela tentas, em vão, te aproximar,
pois as hienas a farejaram primeiro,
e nem da podridão consegues te alimentar.


As hienas já não te respeitam, caçoam de ti
e, sobre teu corpo alquebrado, investem.
É nesse momento que percebes a desgraça:
Não és mais caçador. És a caça…


Com movimentos lentos, patadas débeis e banais,
inutilmente tentas das feras te defender.
No céu, bandos de abutres se alvoroçam,
o régio banquete antegozam, famintos…


Teu último urro é quase um gemido, quase um lamento,
e há nesse urro tanta dor… consentimento.


Caros amigos, percebem, em tudo isso,
um humano e terrível significado?
No mundo, tantos reis depostos,
na selva, quantos leões tombados.


                                                       De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2009






Eu me recordo...

                                                                                  


                                                                          



Eu me recordo...



Eu sou o que me falta...

Eu sou o que fica quando tudo vai embora…




Eu me recordo… era tão pequeno…
quando à antiga escola me levaste.
E, ao chegar, após um breve beijo,
com calmo sorriso me falaste:
que logo virias me buscar,
que não precisava me preocupar.
Fui, devagar, descendo a escadaria,
trêmulo, com vontade de chorar.

No pátio da velha escola,
crianças corriam, brincavam,
numa euforia plena de liberdade,
infantilmente se esbaldavam.
Pareciam filhotes de aves,
tão distantes de seus ninhos.
Livres, voavam alegres;
triste, eu voava sozinho…

Mais uma vez ergui meu olhar,
teu vulto, ansioso, procurei.
Lá da rua, calmamente a me fitar,
parecias triste, eu achei…
Quis, então, voltar ao pé da escada,
mas fiquei ali parado, pobre menino...
vendo tua figura que se afastava,
pressentindo ali, talvez, o meu destino…

O sinal tocou… ainda o escuto…
Na grande fila entrei, resignado.
Ela arrastava-se lentamente…
Fui, então, por mãos estranhas levado.

Hoje… após tantos anos passados,
ao rememorar esta passagem,
não posso deixar de ver e constatar:
nesta longa e quase dolorosa viagem,
que tudo que vejo e percebo nela
tem um sentido… um significado…
Pois, mais uma vez, eu fui,
agora para sempre, por ti, deixado.

A vida é a escola onde me encontro perdido.
Entre sorrisos efêmeros e fúteis,
vou buscando algo que dê sentido
a dias tão longos e inúteis…

O pátio da escola agora está vazio.
Só há nele: desespero… solidão…
Continuo voando, triste e só,
perdido em minha própria imensidão.
Resta-me apenas uma leve esperança,
nesta dor atroz e infinda:
que, no final da grande aula,
venhas, quem sabe, buscar-me ainda…


                                                               De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 2002



Homem..!

                                                                                         
                                                                                                         






Homem…!


“O homem busca significado
 em um universo que não o oferece.”
Albert Camus

“O homem é uma paixão inútil.”
Jean-Paul Sartre




Homem…! Que em vão perscrutas céus distantes,
nas horas em que o destino te acovarda…
buscas na volúpia dos instantes
o refrigério anil da paz sonhada.

Homem…! De longe trazes, arquejante,
os ímpetos febris em derrocada.
Sonhos de alvoradas inebriantes,
no ocaso da esperança malfadada…

Homem...! Ser que se debate inutilmente,
dize-me...! Para que tanto empenho,
se o que colhes de cada esperança
é o fruto amargo da decepção...?

Se a cada grito que ao mundo imprecas,
só te responde o terrível eco:
solidão...!


                                                                          De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito nos anos 80


domingo, 27 de abril de 2008

Dessepulta-me...!

                                   

                                            




Dessepulta-me…!


“Amo-te até te destruir.”
(Inspirado em Clarice Lispector)



Acorda-me…!
Tenho andado dormindo por todos esses anos…
Restitua-me o sonho… as ilusões… as crenças…
Desata-me dos laços frios da indiferença…
Reconstitua o ser humano que havia em mim.

Dessepulta-me…!
Ressuscita no calor dos teus braços
a vitalidade de meu corpo e de minha alma…
Enlouqueça-me…!
Há muito tenho andado sonolento na razão…

Explora-me…!
Faça de cada parte de mim tua posse,
teu objeto, teu poder…
Submeta-me…! Restringe-me a ti!
Confine-me em teus calabouços…
Faça-me sentir a liberdade dos possuídos…

Contesta-me…!
Não aceite como tuas minhas verdades.
Reeduca-me como se eu fosse uma criança
brincando de ser homem pela vida…

Viola-me…!
Com teus olhos que conhecem a coragem
e que enxergam em mim a covardia…
Desdenha destes meus temores.
Ensina-me a ousar…
a não temer fracassos…

Liberta-me...!
Da redoma fria em que me isolei.
Reabra-me...! Disseca-me...!
E depois... Fecha-me...!
Com teu amor... para sempre...!
Dentro de mim...

                                                      De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito nos anos 90