Vade Cum Deo Matre...
Escrito em meados de 2002, por ocasião
da morte de minha querida mãe.
Antero de Quental
João Guimarães Rosa
Esta noite sonhei contigo,
Estavas bonita,
feliz e toda arrumada.
A tua roupa elegante cheirava a muda nova,
Tinhas os olhos calmos e a face rosada.
Pareceu-me mais jovem. Bela...
como se fosse outrora...
Andavas de um lado para o outro,
e, impaciente, me perguntavas a hora.
Parecia que tinhas pressa de partir,
irias para longe viajar.
E a aurora não surgia... e o tempo não passava...
havia angústia no esperar.
A todo instante, ansiosa...
pela janela aberta espreitavas.
E aquele algo... que não vinha...
e aquela coisa...que não chegava...
De repente... Em meio ao silêncio, um ruído!
Um carro em frente à casa estacionou.
Ele era alvo... lindo... reluzente...
um motorista, todo de branco, lhe chamou.
Olhaste para mim e então... falaste:
“Preciso partir... A hora é chegada.”
E foste saindo... calma... serena...
como por um zéfiro divino levada...
E eu fiquei ali parado... Os sentimentos eram dúbios,
um misto de dor e alívio em meu peito eclodia.
Tentava, atônito, entendê-los... mas as emoções,
em si próprias se perdiam...
Andei... Fui até a janela...
Queria, pela última vez, poder te olhar...
Vi que sua bagagem era enorme...
não conseguias, ela, no carro colocar...
E foi num pedido lancinante e cheio de cuidados
que, tendo a face em prantos, gritei:
Mãe... Não leve tantas coisas contigo...
Deixe-as... Eu clamei...
E, compreendendo-me, para mim sorriste...
e as malas, com denodo, colocaste no chão...
Partiste... sem daqui nada levar...
leve... tua alma, leve...teu coração.
De Hyppólito (Elsio Poeta)




