Penitência Tardia
“Breve é a loucura, longo o
arrependimento.”
Friedrich Schiller
A notícia veio pela manhã: meu irmão não estava bem,
teve um mal súbito e foi internado às pressas.
Cancelei todos os compromissos e segui para o hospital.
No trajeto, enquanto caminhava para lá,
pensamentos e recordações povoavam minha mente.
O cofre da memória, então, se abriu...!
E tanta coisa...
recôndita em minha alma, então, surgiu...!
Me veio à lembrança um Natal antigo,
nós todos pequenos, em escadinha,
Eu, minha irmã e o caçulinha...
Como foi contestável Papai Noel naquele dia,
trazendo em seu ordinário saco a desarmonia:
para mim um lindo carrinho...
para minha irmã uma graciosa boneca...
e para o menor uma lúdica e inútil peteca...!
Seus olhinhos se fixavam em meu brinquedo,
e eu, perverso, tripudiava e tinha prazer nisto...
fazendo “vrum” com meu carrinho,
enquanto ele segurava a infame peteca,
sem ter ao menos com quem jogar...
O tempo foi passando, a peteca ficou jogada num canto,
empoeirada e esquecida, até que um dia foi parar no lixo...
mas meu lindo carrinho permanecia intacto... intocável...
A crueldade infantil é imensurável...
Por muitas e muitas vezes, ele, tadinho...
ficava parado a olhar para o carrinho,
com aquela ânsia infantil de pelo menos tocá-lo,
brincar nem que fosse só um pouquinho,
e eu, sórdido, não deixava...
Os anos avançaram, cada qual seguiu o seu caminho,
essas lembranças cauterizaram-se em meu cerne.
Não sei se houve reciprocidade em meu irmão...
Hoje elas eclodem em mim,
tempestivas e apocalípticas.
É o arrependimento inútil dos culpados,
a metanoia estéril dos delinquentes.
O momento chega...
justo e inevitável...!
Entro no quarto...
meu irmão volta para mim seus olhos...
observo em seu olhar...
o mesmo brilho daquele fatídico Natal.
Pareceu-me até que pedia que não o deixasse partir...
como se a vida fosse aquele brinquedo
que eu não queria dividir...
Quis no último instante lhe pedir perdão...
mas os olhos dele já se despediam...
Foi aí então que me veio o desejo absurdo de falar:
“_ Não...! Não vá embora não, querido maninho..!
Eu jogo peteca contigo...
eu deixo você ficar com o carrinho...”
Do livro: Contos de Vidas que não Vivi
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito em 2022