PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Penitência Tardia

                                                                                        




 Penitência Tardia


“Breve é a loucura, longo o arrependimento.”

 Friedrich Schiller

  

A notícia veio pela manhã: meu irmão não estava bem,

teve um mal súbito e foi internado às pressas.

Cancelei todos os compromissos e segui para o hospital.

 

No trajeto, enquanto caminhava para lá,

pensamentos e recordações povoavam minha mente.

O cofre da memória, então, se abriu...!

E tanta coisa...

recôndita em minha alma, então, surgiu...!

 

Me veio à lembrança um Natal antigo,

nós todos pequenos, em escadinha,

Eu, minha irmã e o caçulinha...

 

Como foi contestável Papai Noel naquele dia,

trazendo em seu ordinário saco a desarmonia:

para mim um lindo carrinho...

para minha irmã uma graciosa boneca...

e para o menor uma lúdica e inútil peteca...!

 

Seus olhinhos se fixavam em meu brinquedo,

e eu, perverso, tripudiava e tinha prazer nisto...

fazendo “vrum” com meu carrinho,

enquanto ele segurava a infame peteca,

sem ter ao menos com quem jogar...

 

O tempo foi passando, a peteca ficou jogada num canto,

empoeirada e esquecida, até que um dia foi parar no lixo...

mas meu lindo carrinho permanecia intacto... intocável...

 

A crueldade infantil é imensurável...

Por muitas e muitas vezes, ele, tadinho...

ficava parado a olhar para o carrinho,

 

com aquela ânsia infantil de pelo menos tocá-lo,

brincar nem que fosse só um pouquinho,

e eu, sórdido, não deixava...

 

Os anos avançaram, cada qual seguiu o seu caminho,

essas lembranças cauterizaram-se em meu cerne.

Não sei se houve reciprocidade em meu irmão...

 

Hoje elas eclodem em mim,

tempestivas e apocalípticas.

É o arrependimento inútil dos culpados,

a metanoia estéril dos delinquentes.

 

O momento chega...

justo e inevitável...!

 

Entro no quarto...

meu irmão volta para mim seus olhos...

observo em seu olhar...

o mesmo brilho daquele fatídico Natal.

 

Pareceu-me até que pedia que não o deixasse partir...

como se a vida fosse aquele brinquedo

que eu não queria dividir...

 

Quis no último instante lhe pedir perdão...

mas os olhos dele já se despediam...

Foi aí então que me veio o desejo absurdo de falar:

“_ Não...! Não vá embora não, querido maninho..!

Eu jogo peteca contigo...

eu deixo você ficar com o carrinho...”


Do livro: Contos de Vidas que não Vivi


                                                                   De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2022

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