PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

domingo, 22 de março de 2026

O CLAMOR DE JÓ

 

                                                                                        




                                    

 

O CLAMOR DE JÓ

 

 

 

“Apodrecia Jó no muladar. No entanto,

não lhe queimava a língua o fogo de uma praga

contra quem o prostrou na terra de Hus, e, o manto

roto, deixou-o nu e o corpo, aberto em chaga…

 

Mas a mulher de Jó pensava, com espanto,

como podia ser que, da virtude em paga,

ele sofresse, mudo e só, represo o pranto,

a injustiça do céu que nos abate e esmaga…

 

Disse-lhe, então: — “Amaldiçoa a Deus e morre!”

 

Wenceslau de Queiroz


  

 

Sentado sobre cinzas, solitário...

Jó contemplava em prantos o firmamento.

E eis que viu um bólido flamejante

surgir no céu, precipitando-se entre astros

e viu ele sumindo, quem sabe...? Num oceano distante....

 

E Jó lembrou sua queda formidável...

outrora rei... astro... e hoje pó...

Nada mais havia nele que o remetesse ao antigo esplendor.

Ele se misturou à telúrica matéria,

agora ele era pó e em pó se assentava.

 

Os filhos lhe foram tirados, não mais o alegravam.

A esposa o incitava a blasfemar.

Os amigos que lhe restaram

só tinham palavras para lhe condenar.

 

E Deus...? Por que se ausentara...?

Deus era bom...! Deus era pai...! Deus era justiça...!

Por que Deus havia de o deixar assim...?

 

E mais uma vez seus olhos cansados

aos céus se ergueram...e então bradou...

Acaso não tinha sido ele justo...?

Acaso não havia amado a todos...?

 

“—Contemple... Ó Deus...! Em tua grandeza...

a minha fragilidade... a minha fraqueza...

o meu corpo de chagas todo coberto.

Mas...! Antes de tudo... Ó Deus...! Contemple...

A minha alma...

 

Há nela uma chaga muito mais densa.

A chaga da dúvida... A chaga da descrença...

Restitua-me os valores em que acreditei...

Restitua-me a fé que tinha em tua justiça...”

 

E Jó, assim nesse estado, quase que irracional...

não sabia...! Que ele era apenas uma vítima divina...

de uma aposta que ouve entre o Bem e o Mal...


Não sabia também, o paciente justo:

que enquanto seu clamor ecoava pelo mundo ao léu...

Deus ria do poder do inferno...

e o Demônio zombava do poder do Céu. *

  

*Inspirado nos dois últimos versos da última estrofe do poema “Doutor Fausto”, de Wenceslau de Queiroz.


                                                                                                      De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito no início dos anos 90        

             

           

sábado, 21 de março de 2026

A Gente Se Acostuma…











A Gente Se Acostuma…







                                   Inspirado no célebre texto de Marina Colasanti


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Augusto dos Anjos (Versos Íntimos)
       

“Amoldar-se ao mundo e às suas regras não quer dizer que as aceitamos nem que fazemos parte delas…”



A gente se acostuma… a ser isso que somos, a ser o que o dia a dia nos torna…
a brigar por vagas nos estacionamentos, a brigar por vagas nos empregos, a brigar por espaço no coração de alguém…


A gente se acostuma… a ser promovido e sentir-se humilhado, a ser escolhido e sentir-se relegado, a ser abençoado e sentir-se maldito.


A gente se acostuma… a colegas que nos tiram da solidão sem nos proporcionar companhia, a beijar sapos que não se tornam príncipes, a frequentar lugares que odiamos e a conviver com pessoas que nada nos acrescentam e que para nós nada significam…


A gente se acostuma… a ser gerido pela incompetência, a ser torturado por ela sem clemência, a ser peça em mãos inescrupulosas que violam nossa inteligência…

A gente se acostuma… a encarar a vida como um mero exercício de aceitação… a deitar no “Leito de Procusto” das regras sociais… a amputar nossas aspirações, nossos anseios, nossas esperanças…


A gente se acostuma… a crer que é dando que se recebe, a crer que é fechando os olhos que se perdoa, a crer que é sofrendo que se forja escudos…


A gente se acostuma… à gravata apertada das instituições, à saia justa das negociações, ao manto vil da cumplicidade…


A gente se acostuma… à corrupção dos elogios fraudulentos, à adulação hipócrita de nossos subordinados e à torpe indulgência de nossos superiores…


A gente se acostuma… a ser parte de uma estatística acéfala, uma estatística que não gera nada… não cria nada… não prova nada… que nos reduz a nada…


A gente se acostuma… a ganhar batalhas, perdendo-as, a triunfar sentindo a inutilidade da conquista e sentir o fel da vitória pírrica.


A gente se acostuma… a enterrar nossos sonhos, nossos ideais, a ocultar nossos mais caros sentimentos, a engolir a seco toda a mediocridade do mundo, a aplaudir de pé a farsa infame dos hipócritas…


A gente se acostuma… a ser fera para não ser devorado por feras, a participar desse jogo sem questionar suas regras, a aceitar a trapaça no blefe dos farsantes…


A gente se acostuma… a não olhar para frente com medo do tempo que se esgota e que nos consome…


A gente se acostuma… ao medo do que virá, do que será, do que farei…


A gente se acostuma… a fazer várias coisas ao mesmo tempo sem se concentrar em uma, a ver nossa vida esvaindo-se rapidamente na volúpia das horas sem se dar conta disso…


A gente se acostuma… a ver nossos filhos crescerem na mesma proporção dos nossos medos, a ver a cada dia nossa imagem no espelho refletida sem nos enxergarmos, a envelhecer sufocando a criança que brinca em nosso peito…


A gente se acostuma… a se despedir chegando, a chegar partindo… a não olhar para trás com medo de ver que nos deixamos no caminho, que alguma parte de nós ficou na estrada, talvez a nossa melhor parte…


A gente se acostuma… a ver entes queridos partindo, nossos amigos sumindo… as mesas ficando vazias… a gente se acostuma a ficar cada vez mais só…
 
Sim…! A gente se acostuma…, mas não devia.


                                                                                            De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito por volta de 2015


                                                                                                      

A Fera

                                                                               

                                                                                         





 

A Dor do Entardecer

 

“A vida é uma doença incurável.”

Abraham Cowley

 

À minha mãe “muito doente”

Ao meu pai “cheio de fé”

 

Poema escrito em 2002

 

 

O cenário perfeito… uma casa, um jardim…

em uma praça calma, a paz… enfim…

sentada em tua cadeira, rodeada de afetos,

poderás, feliz, receber teus netos.

 

 As mágoas foram esquecidas, feridas cicatrizadas.

Os rancores diluídos, as dores estancadas.

De más recordações não mais se fala,

a incerteza do futuro nada mais abala.

  

Mas o destino brinca com o imponderável —

no cenário perfeito, põe um intruso irremediável.

A paz torna-se, então, apática… os olhos se fixam no nada.

Teu corpo cede… pressentindo o fim da estrada…

 

E ele, “Dom Quixote”, visionário, cheio de esperança,

avança contra os moinhos de vento com sua lança

e abate o monstro gigantesco que te devora…

ele crê…! E como essa crença me apavora…

 

 Há muito perdi a fé e pela descrença fui derrotado.

Já sonhei assim e quisera estar ao teu lado,

empunhando a lança, a esperança, com a fé em riste.

Sou apenas um cavaleiro miserável e triste…

 

 

Queria poder algo fazer, em vão tento me esforçar,

restam-me apenas lágrimas no olhar.

Contemplo, inerte, a dor deste entardecer,

e nesse instante começo a envelhecer.

  

                                                                          De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema esboçado nos anos 80 e finalizado em 2026

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Catedral Abandonada

                                                                                           



Catedral Abandonada

 

“A ferida é o lugar por onde entra a luz.”

Rumi (poeta persa)

 

“A alma que não se tortura não se purifica.”

 Santo Agostinho

 

 

Minh’alma — asceta solitária —

reza na catedral abandonada de meu corpo.

Amando o silício que a tortura e a ordinária

 

manta que a cobre nas noites de suplício.

Beija as chagas e lambe as feridas,

parecendo ter prazer no sacrifício.

 

Abençoada seja todo mal que a tantaliza!

Pois nessa dor, algoz bendita...

o seu sonho de paz... se realiza.

 

De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito no início dos anos 80