PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Poema Inacabado

 





Poema Inacabado


“Às vezes o que nos falta para concluir uma obra,

não é inspiração…

é a pureza e a espontaneidade de uma criança.

Pois, no final, o que realmente importa,

não são os versos que escrevemos,

mas o que a vida rabisca

por cima de tudo que criamos…”

 

 

Esbocei um poema em uma folha solta

e, me faltando inspiração, parei de escrever.

A folha ficou largada em cima da mesa,

e eu sempre adiando a hora de concluí-lo.

 

Quando finalmente resolvi terminá-lo,

notei que havia rabiscos infantis

sobre minhas ideias mal traçadas.

 

Percebi que eram de meu filho,

que naquela fase de rabiscar

tudo o que via pela frente,

havia desenhado sobre meu poema inacabado

uma espécie de carinha feliz

e algo que se assemelhava a um sol.

 

 

O ser humano tem sentimentos e emoções

que são muito difíceis de explicar...

Comecei a chorar sobre a folha rabiscada,

e o poema não consegui mais terminar...

 

De Hyppólito (Elsio Poeta)

 

Poema escrito em 2026

domingo, 22 de março de 2026

O CLAMOR DE JÓ

 

                                                                                        




                                    

 

O CLAMOR DE JÓ

 

 

 

“Apodrecia Jó no muladar. No entanto,

não lhe queimava a língua o fogo de uma praga

contra quem o prostrou na terra de Hus, e, o manto

roto, deixou-o nu e o corpo, aberto em chaga…

 

Mas a mulher de Jó pensava, com espanto,

como podia ser que, da virtude em paga,

ele sofresse, mudo e só, represo o pranto,

a injustiça do céu que nos abate e esmaga…

 

Disse-lhe, então: — “Amaldiçoa a Deus e morre!”

 

Wenceslau de Queiroz


  

 

Sentado sobre cinzas, solitário...

Jó contemplava em prantos o firmamento.

E eis que viu um bólido flamejante

surgir no céu, precipitando-se entre astros

e viu ele sumindo, quem sabe...? Num oceano distante....

 

E Jó lembrou sua queda formidável...

outrora rei... astro... e hoje pó...

Nada mais havia nele que o remetesse ao antigo esplendor.

Ele se misturou à telúrica matéria,

agora ele era pó e em pó se assentava.

 

Os filhos lhe foram tirados, não mais o alegravam.

A esposa o incitava a blasfemar.

Os amigos que lhe restaram

só tinham palavras para lhe condenar.

 

E Deus...? Por que se ausentara...?

Deus era bom...! Deus era pai...! Deus era justiça...!

Por que Deus havia de o deixar assim...?

 

E mais uma vez seus olhos cansados

aos céus se ergueram...e então bradou...

Acaso não tinha sido ele justo...?

Acaso não havia amado a todos...?

 

“—Contemple... Ó Deus...! Em tua grandeza...

a minha fragilidade... a minha fraqueza...

o meu corpo de chagas todo coberto.

Mas...! Antes de tudo... Ó Deus...! Contemple...

A minha alma...

 

Há nela uma chaga muito mais densa.

A chaga da dúvida... A chaga da descrença...

Restitua-me os valores em que acreditei...

Restitua-me a fé que tinha em tua justiça...”

 

E Jó, assim nesse estado, quase que irracional...

não sabia...! Que ele era apenas uma vítima divina...

de uma aposta que ouve entre o Bem e o Mal...


Não sabia também, o paciente justo:

que enquanto seu clamor ecoava pelo mundo ao léu...

Deus ria do poder do inferno...

e o Demônio zombava do poder do Céu. *

  

*Inspirado nos dois últimos versos da última estrofe do poema “Doutor Fausto”, de Wenceslau de Queiroz.


                                                                                                      De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito no início dos anos 90        

             

           

sábado, 21 de março de 2026

A Gente Se Acostuma…











A Gente Se Acostuma…







                                   Inspirado no célebre texto de Marina Colasanti


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Augusto dos Anjos (Versos Íntimos)
       

“Amoldar-se ao mundo e às suas regras não quer dizer que as aceitamos nem que fazemos parte delas…”



A gente se acostuma… a ser isso que somos, a ser o que o dia a dia nos torna…
a brigar por vagas nos estacionamentos, a brigar por vagas nos empregos, a brigar por espaço no coração de alguém…


A gente se acostuma… a ser promovido e sentir-se humilhado, a ser escolhido e sentir-se relegado, a ser abençoado e sentir-se maldito.


A gente se acostuma… a colegas que nos tiram da solidão sem nos proporcionar companhia, a beijar sapos que não se tornam príncipes, a frequentar lugares que odiamos e a conviver com pessoas que nada nos acrescentam e que para nós nada significam…


A gente se acostuma… a ser gerido pela incompetência, a ser torturado por ela sem clemência, a ser peça em mãos inescrupulosas que violam nossa inteligência…

A gente se acostuma… a encarar a vida como um mero exercício de aceitação… a deitar no “Leito de Procusto” das regras sociais… a amputar nossas aspirações, nossos anseios, nossas esperanças…


A gente se acostuma… a crer que é dando que se recebe, a crer que é fechando os olhos que se perdoa, a crer que é sofrendo que se forja escudos…


A gente se acostuma… à gravata apertada das instituições, à saia justa das negociações, ao manto vil da cumplicidade…


A gente se acostuma… à corrupção dos elogios fraudulentos, à adulação hipócrita de nossos subordinados e à torpe indulgência de nossos superiores…


A gente se acostuma… a ser parte de uma estatística acéfala, uma estatística que não gera nada… não cria nada… não prova nada… que nos reduz a nada…


A gente se acostuma… a ganhar batalhas, perdendo-as, a triunfar sentindo a inutilidade da conquista e sentir o fel da vitória pírrica.


A gente se acostuma… a enterrar nossos sonhos, nossos ideais, a ocultar nossos mais caros sentimentos, a engolir a seco toda a mediocridade do mundo, a aplaudir de pé a farsa infame dos hipócritas…


A gente se acostuma… a ser fera para não ser devorado por feras, a participar desse jogo sem questionar suas regras, a aceitar a trapaça no blefe dos farsantes…


A gente se acostuma… a não olhar para frente com medo do tempo que se esgota e que nos consome…


A gente se acostuma… ao medo do que virá, do que será, do que farei…


A gente se acostuma… a fazer várias coisas ao mesmo tempo sem se concentrar em uma, a ver nossa vida esvaindo-se rapidamente na volúpia das horas sem se dar conta disso…


A gente se acostuma… a ver nossos filhos crescerem na mesma proporção dos nossos medos, a ver a cada dia nossa imagem no espelho refletida sem nos enxergarmos, a envelhecer sufocando a criança que brinca em nosso peito…


A gente se acostuma… a se despedir chegando, a chegar partindo… a não olhar para trás com medo de ver que nos deixamos no caminho, que alguma parte de nós ficou na estrada, talvez a nossa melhor parte…


A gente se acostuma… a ver entes queridos partindo, nossos amigos sumindo… as mesas ficando vazias… a gente se acostuma a ficar cada vez mais só…
 
Sim…! A gente se acostuma…, mas não devia.


                                                                                            De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito por volta de 2015


                                                                                                      

A Fera

                                                                               

                                                                                         





 

A Fera

 

“O pior cárcere é aquele que não se vê.”

 

 

Dentro da jaula, a fera, solitária…

segue em círculos sua ronda tediosa,

encarcerando em si a liberdade — ela… “visionária” …!

 

Sonha inutilmente com seu rugido despertar…

àqueles que, sem piedade, lhe acorrentam,

na agonia sombria e imensa do esperar…

 

Sua patada é tão tímida, nada alcança…

nem a mosca que, sórdida, voeja em sua jaula,

nem as grades que lhe cegam a esperança...

 

O que há para além de seu cárcere lhe assusta...

desiste e, acomodada a si mesma, adormece...

na cela de uma forma quase “augusta” ...

 

Adestrada pelo medo do mal e dos reveses,

a fera de uma forma quase que obscena,

repousa no miasma de suas próprias fezes.

 

                                                                          De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema esboçado nos anos 80 e finalizado em 2026

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Catedral Abandonada

                                                                                           



Catedral Abandonada

 

“A ferida é o lugar por onde entra a luz.”

Rumi (poeta persa)

 

“A alma que não se tortura não se purifica.”

 Santo Agostinho

 

 

Minh’alma — asceta solitária —

reza na catedral abandonada de meu corpo.

Amando o silício que a tortura e a ordinária

 

manta que a cobre nas noites de suplício.

Beija as chagas e lambe as feridas,

parecendo ter prazer no sacrifício.

 

Abençoada seja todo mal que a tantaliza!

Pois nessa dor, algoz bendita...

o seu sonho de paz... se realiza.

 

De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito no início dos anos 80



 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Cigarra e a Formiga


                                                            








Do Livro "Fábulas Inglórias" 
Baseada na célebre obra de Esopo


A Cigarra e a Formiga


“Quando o canto acaba, o que resta é o silêncio”

(inspirado em Shakespeare)

 

Conta-nos a velha fábula que, em certo dia, encontrando-se uma formiga com uma cigarra, esta lhe perguntou: “Para que tanto empenho assim e tanto trabalho, sem se dar um momento de descanso e divertimento...?” Vamos celebrar a vida, pois ela é curta, dura menos do que se espera...

Ao que de imediato a formiga respondeu: “Não... Não podemos nos divertir agora, o inverno se aproxima e ele será rigoroso e nefasto... É preciso guardar agora para que tenhamos uma velhice segura.”

A cigarra retrucou: “Mas que absurdo...! Viver pensando na decadência, na senilidade e na inevitável degeneração. Guardar toda a sua economia e pecúlio para gastar com quê...? Com médicos mercenários, bruxos ardilosos, clérigos hipócritas, exéquias, inumações, caixões, tumbas, pompas fúnebres, carpideiras...?! Me desculpe, cara formiga, a mocidade é breve e grita por liberdade, implora por devaneios, namoricos e aventuras... A vida é como um sopro; quando menos se espera, ela se esvai...”

A formiga balançou a cabeça de forma negativa, com um esgar benevolente e quase lamentoso, e disse à cigarra: “Se nós pararmos de marchar todo santo dia em busca do pão e do sustento, o que será de você...? Como saciarias a tua sede e a tua caótica enomania...? Como te fartarias de guloseimas tendo uma voracidade tal? Somos nós que subsidiamos a tua existência, somos nós que pagamos a fatura das tuas aberrações etílicas e sustentamos as tuas elucubrações noturnas... O nosso pão, ganho através do nosso suor, é o que te alimenta e te dá força para cantar... O que nos dás em troca?! Apenas o teu canto pueril, aliás... a única coisa para a qual serves.”

E separaram-se quase em litígio os dois insetos.

O tempo passou... O inverno chegou... Inescrupuloso... gélido... empalidecendo toda a natureza... Corpos e mais corpos jaziam nas trilhas, havia um clima fúnebre no ar... Um cântico de morte ecoava nos ventos impiedosos e invernais.

A cigarra adoeceu... Não podia mais cantar... Tentava..., mas era em vão... Tentava..., mas não conseguia... Sua voz enregelou-se nos desfiladeiros vocais. E seus companheiros de farra, todos mortos nas geladas veredas da floresta.

A formiga foi visitá-la e consigo trouxe alguns gravetos que havia guardado; e, com a chama destes gravetos, tentou aquecer o lar da cigarra.

A cigarra teve uma melhora súbita e entoou seu último canto, belo, mas breve, como tudo que é belo nesta vida... E nunca se ouviu tão lindo canto na floresta; era a nênia triste da despedida ecoando no cantochão melancólico da existência...

E logo após o tenebroso inverno, voltaram as formigas às suas tarefas diárias.

Mas a caminhada, de repente, havia se tornado árdua e mais difícil, sem o canto mavioso da cigarra. O caminho parecia, agora, mais longo... a carga mais pesada... o tempo mais extenso e a monotonia mais voraz...

A formiguinha continuou com seus afazeres, pois o que restava era apenas isso: Caminhar...! Sem saber para onde isto a levava... Caminhar...! Pois o mais importante é: Seguirmos em frente, pouco importa para onde isto nos levar...

Moral da história:

Se a cigarra morreu na miséria, sem afeto e sem remédio,

a formiga morreu de quê...?

Quem sabe de desesperança...

Inanimada, talvez, na apatia sepulcral do tédio...


                                                                                                             De Hyppólito (Elsio Poeta)


Texto escrito em 2025



terça-feira, 2 de setembro de 2025

O Último Olhar

                                                                                      

                                                                            





O Último Olhar

 

O olhar despede mais chama
no instante da despedida.
E é na renúncia que se ama
mais intensamente a vida.

              Stefan Zweig


O corpo até aceita...
A alma, da morte, o temor abranda.
Mas os olhos... eternos rebeldes...
esses nunca querem dizer adeus.


O que há no último olhar...?

Compreensão...? Revolta...? Esperança...? Desespero...?

Te pergunto, querida Mãe:

Para onde olhaste no instante derradeiro?

Teria sido para uma pedra inamovível,

A segurar papéis inúteis sobre alguma mesa?

Ou, quem sabe..., para uma borboleta...

Que se debatia com sofreguidão contra uma vidraça...

Tentando, inutilmente, fugir daquele ambiente cáustico

onde a morte exalava seu cheiro acre e modorrento?

Tentando atingir... quem sabe...?

O lindo jardim que tanto ansiava,

e que, reluzente, a aguardava

para além das visões vítreas da existência...?

 

O que há no último olhar...?

Querido e saudoso Pai...

Altivez...? Paixão...? Resiliência...?

Ou, quem sabe..., a alegria, a perspectiva

de novos mundos finalmente conhecer...

e de deixar, enfim, este tedioso porto chamado vida?

 

Diga-me, querido Pai...

Onde pousaste teu último olhar...?

Teria sido, talvez, em um “insensato” besouro...?

a lutar em vão contra uma lâmpada,

Como se quisesse, alucinadamente, a luz penetrar...?

Ou, quem sabe..., para algum bicho rastejante

que tentava escapulir incólume e sem sequelas

de pés incautos e despreparados...?

 

Eu comparo a dor do último olhar à dor do primeiro...

São quase idênticos...

Em ambos há medo e pavor do desconhecido.

Em ambos, luz... sombras... e uma dor imensurável...

Uma sensação análoga à que teve Lázaro ao voltar à vida.

 

O que haverá no meu último olhar?

Dor...? Remorso...? Desânimo...? Penitência...?

Quem sabe a relutância em assumir tantos erros cometidos

e a vergonha de meu acanhamento pusilânime diante da vida?

 

A mim... Se me fosse permitido escolher,

onde pousaria meu último olhar.

Escolheria pousar estes meus desvanecidos olhos...

naqueles olhos que deram sentido à minha existência,

naqueles olhos que desvendaram para mim

o sentido do amor, da reciprocidade e da entrega.

E poder, no extremo instante, dizer-lhes:

“Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
assim! de um sol assim!...” *

                                        

                                                             De Hyppólito (Elsio Poeta)


 *Olavo Bilac - In Extremis (Excerto)

 

Poema escrito em 2025


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Vade Cum Deo Matre...

                                                                                               






                                                                                 


Vade Cum Deo Matre...


Escrito em meados de 2002, por ocasião

da morte de minha querida mãe.



“Seja a terra degredo, o céu destino.”

Antero de Quental

“Na hora da partida, o que se leva não é bagagem, é o olhar que ficou”

João Guimarães Rosa


 

Esta noite sonhei contigo,

 Estavas bonita, feliz e toda arrumada.

A tua roupa elegante cheirava a muda nova,

Tinhas os olhos calmos e a face rosada.

Pareceu-me mais jovem. Bela...

como se fosse outrora...

Andavas de um lado para o outro,

e, impaciente, me perguntavas a hora.

 

Parecia que tinhas pressa de partir,

irias para longe viajar.

E a aurora não surgia... e o tempo não passava...

havia angústia no esperar.

A todo instante, ansiosa...

pela janela aberta espreitavas.

E aquele algo... que não vinha...

e aquela coisa...que não chegava...

 

De repente... Em meio ao silêncio, um ruído!

Um carro em frente à casa estacionou.

Ele era alvo... lindo... reluzente...

um motorista, todo de branco, lhe chamou.

Olhaste para mim e então... falaste:

“Preciso partir... A hora é chegada.”

E foste saindo... calma... serena...

como por um zéfiro divino levada...

 

E eu fiquei ali parado... Os sentimentos eram dúbios,

um misto de dor e alívio em meu peito eclodia.

Tentava, atônito, entendê-los... mas as emoções,

em si próprias se perdiam...

Andei... Fui até a janela...

Queria, pela última vez, poder te olhar...

Vi que sua bagagem era enorme...

não conseguias, ela, no carro colocar...

 

 

E foi num pedido lancinante e cheio de cuidados

que, tendo a face em prantos, gritei:

Mãe... Não leve tantas coisas contigo...

Deixe-as... Eu clamei...

E, compreendendo-me, para mim sorriste...

e as malas, com denodo, colocaste no chão...

Partiste... sem daqui nada levar...

leve... tua alma, leve...teu coração.


                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)

 

domingo, 17 de agosto de 2025

O Despertar

 




                                                                                        





O Despertar

Poema escrito em meados de 2002, por ocasião

da morte de minha querida mãe. (continuação de "Vade Cum Deo Matre")


“Adormeceste para sempre,
baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente,
florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...”

Da Costa e Silva

 

E despertei... E como foi duro, do sonho despertar.

A mente cansada, tentando em vão as ideias conjugar,

abri a janela e vi que o sol nascia...

Indiferente a toda dor... cinicamente ele nascia...

E quanto mais no céu ele brilhava...

mais escuridão em minh’alma havia.

 

Lembrei-me, com um doce amargor, dos tempos idos,

e chorei por ver tantos sonhos e crenças destruídos...

Um desânimo profundo apoderou-se de meu corpo,

em nada mais acreditava... na vida, no amor e até em mim.

O ser humano, em desespero, culpa tudo nesta ansiedade,

até Deus... até o destino... até a eternidade...

 

O dia foi longo e perverso... a noite tardou a chegar...

abri a janela novamente e vi minha dor misturando-se ao luar...

Velhos remorsos vieram à tona, cenas do passado vinham e voltavam

num torvelinho cruel de imagens antigas...

Lembranças guardadas no cofre das recordações.

Olhei para o céu e, entre as estrelas... juro... vi teu rosto... Coisa insana!

Talvez a lamentar a minha pobre e execrável condição humana...


                                                                                                          De Hyppólito (Elsio Poeta)

Templum Vastatum


                                                                  








Templum Vastatum

 

“Afinal, é o costume de viver
que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
o hábito melancólico de ser...”

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...

Raul de Leoni – Decadência (excerto)

 

Caminhando pelo mundo, sinto-me um ser de outro planeta,

um alienígena, um zumbi saído de alguma catacumba sinistra,

um foragido que vagueia sem rumo pelas ruas,

preso ao pesado grilhão dos “tempos idos”.

 

A mim me parece que já não faço parte desta turba insana,

que segue pela rua, em frenéticas volições inconsequentes,

que segue cantando, convulsiva e louca,

a nênia repetitória da miséria humana...

 

Tudo que falo soa inútil, retrógado, inconsistente...

O que penso não importa, o que acho...? Tanto faz...

Sou apenas uma ameba transitiva... um aluado... um demente...

que vê o mundo como se fora um templo inglório,

promíscuo e decadente.

 

Quisera eu, como um “Sansão cego e ensandecido”,

incólume este templo penetrar,

e ao abraçar seus alicerces carcomidos...

ver toda essa tragédia humana sobre mim

desmoronar...!

                                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2025



sábado, 16 de agosto de 2025

A Vida... O Vento... A Mediocridade... A Morte...


                                                                                   





A Vida... O Vento... A Mediocridade... A Morte...



“Não é porque estamos caminhando em direção à morte

               que precisamos sucumbir à mediocridade.”

Nyad (Filme)


“E a Vida passa... efêmera e vazia:
um adiantamento eterno que se espera, 
numa eterna esperança que se adia...”

                                          Raul de Leoni - Legenda dos dias (excerto)

 

A alegria é uma tristeza que se distraiu.

A felicidade, uma dor que um sorriso camuflou.

A vida, uma longa expiação,

na mesmice das horas a perguntar

se valeu a pena vivê-la...!

 

A morte vai te seguindo a cada passo,

a te espreitar sedenta pelo teu sangue...

E a dor...? O que ela faz com os teus dias...?

Como ela pode assim pisar em cada sonho teu...?

Como pode assim te minar... te cercar... te subjugar...?

 

Querer sorrir é como tentar acender uma vela na escuridão;

o vento que vem do passado anima a chama;

e iluminado te sentes...

 

Mas esse vento, que acende e alimenta o fogo,

é o mesmo que logo após o apaga...

é o mesmo que transforma toda tocha em cinzas,

 

é o mesmo que te arrastará para teu final doloroso e inevitável,

e que sepultará na insignificância banal de tua duração terrena

a mediocridade tosca de toda tua existência.


                                                            De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito no início dos anos 2000


Confissões Vetustas

 





  





Confissões Vetustas 


Quando estamos velhos, não caminhamos para o futuro,

só marchamos firmemente para o passado.

Pois... nada do que há além do nosso tempo nos encanta ou nos seduz.


                      

Quando percebemos que estamos ficando velhos...?
Não...! Não é pela imagem no espelho refletida,
pois com o passar do tempo nem prestamos mais atenção nela...

Não...! Não é a dor nos joelhos, nas costas e nas juntas...
pois com o passar do tempo nem as sentimos...
Vamos nos acomodando a elas...

Não...! Não é a irritação, a falta de paciência...
a vontade de consertar o mundo do nosso jeito...
e nem o desespero de ver que isso em nada resulta...

Percebemos que estamos ficando velhos
quando começamos a nos emocionar com coisas “bobas” ...
tais como: um certo aperto no peito

quando vemos nossos filhos com a mochilinha nas costas,
indo para a escola e, pouco a pouco, perceber...
a imagem deles desvanecendo-se lentamente na distância...

Pois nos parece que são eles que partem...
quando na verdade...
somos nós que estamos partindo.

Percebemos que estamos velhos
quando notamos quanta coisa boa não aproveitamos,
quanto bem deixamos de fazer...

Quando sentimos o passado
longe demais para tocá-lo;
o futuro distante demais para alcançá-lo;
e o presente perto demais para senti-lo...



                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 30/11/2023 (60 anos)