PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Vade Cum Deo Matre...

                                                                                               






                                                                                 


Vade Cum Deo Matre...


Escrito em meados de 2002, por ocasião

da morte de minha querida mãe.



“Seja a terra degredo, o céu destino.”

Antero de Quental

“Na hora da partida, o que se leva não é bagagem, é o olhar que ficou”

João Guimarães Rosa


 

Esta noite sonhei contigo,

 Estavas bonita, feliz e toda arrumada.

A tua roupa elegante cheirava a muda nova,

Tinhas os olhos calmos e a face rosada.

Pareceu-me mais jovem. Bela...

como se fosse outrora...

Andavas de um lado para o outro,

e, impaciente, me perguntavas a hora.

 

Parecia que tinhas pressa de partir,

irias para longe viajar.

E a aurora não surgia... e o tempo não passava...

havia angústia no esperar.

A todo instante, ansiosa...

pela janela aberta espreitavas.

E aquele algo... que não vinha...

e aquela coisa...que não chegava...

 

De repente... Em meio ao silêncio, um ruído!

Um carro em frente à casa estacionou.

Ele era alvo... lindo... reluzente...

um motorista, todo de branco, lhe chamou.

Olhaste para mim e então... falaste:

“Preciso partir... A hora é chegada.”

E foste saindo... calma... serena...

como por um zéfiro divino levada...

 

E eu fiquei ali parado... Os sentimentos eram dúbios,

um misto de dor e alívio em meu peito eclodia.

Tentava, atônito, entendê-los... mas as emoções,

em si próprias se perdiam...

Andei... Fui até a janela...

Queria, pela última vez, poder te olhar...

Vi que sua bagagem era enorme...

não conseguias, ela, no carro colocar...

 

 

E foi num pedido lancinante e cheio de cuidados

que, tendo a face em prantos, gritei:

Mãe... Não leve tantas coisas contigo...

Deixe-as... Eu clamei...

E, compreendendo-me, para mim sorriste...

e as malas, com denodo, colocaste no chão...

Partiste... sem daqui nada levar...

leve... tua alma, leve...teu coração.


                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Elsio, que poema delicado e profundo. A forma como você transforma a despedida em um sonho sereno, com a mãe deixando as malas e partindo leve, toca o coração de quem já viveu perdas parecidas. A imagem da borboleta na vidraça e do zéfiro divino é linda. Parabéns pela sensibilidade e pela coragem de colocar tanta verdade no papel. Continua escrevendo, poeta. Um abraço forte.