"Via Crucis"
À minha mãe (1937–2002)
“Assim temo, a evocar-te a imagem linda,
Que, após a morte, venha a eternidade
Esta separação tornar infinda…
E, então, o sentimento que me invade,
Sem a esperança de te ver ainda,
É dor eterna, não é mais saudade.”
Da Costa e Silva
Por que deixaste tão cedo a estrada,
e foste ao pé de um arbusto descansar?
Será que estavas assim tão cansada?
Precisavas tão depressa te ausentar?
Por que carregaste tantas mágoas, castigos…
E fizeste de teu caminhar um suplício?
Por que levaste tanta dor contigo,
tornando tua peregrinação tão difícil?
Por que não entregaste a Deus teus temores,
e não confiaste a um amigo o que sofrias?
Por que tua senda fez-se em um calvário de dores,
não notaste que mesmo em prantos a vida te sorria?
Por que não colheste a flor à beira do caminho,
e não sentiste o perfume que dela exalava?
Por que não te deste o direito a um carinho,
e não olhaste para a criança que ao teu redor brincava?
Por que escolheste a trilha mais íngreme e penosa,
e não viste o caminho amplo que para ti se abria?
Por que só enxergaste os espinhos e não a rosa,
e não percebeste o anjo que de perto te seguia?
Não…! Não era para ser este o rumo de teus passos…
Não…! O destino insiste em cínico blefar…
por isso em meus dias de hoje…o fracasso…
de não poder as peças de tua existência juntar…
nela sonho ver-te com passos firmes caminhar…
nela sonho um sol que te acaricia,
como se fosse as mãos de Deus a te abraçar…
De Hyppólito
Poema escrito em 2002

