PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

terça-feira, 2 de setembro de 2025

O Último Olhar

                                                                                      

                                                                            





O Último Olhar

 

O olhar despede mais chama
no instante da despedida.
E é na renúncia que se ama
mais intensamente a vida.

              Stefan Zweig


O corpo até aceita...
A alma, da morte, o temor abranda.
Mas os olhos... eternos rebeldes...
esses nunca querem dizer adeus.


O que há no último olhar...?

Compreensão...? Revolta...? Esperança...? Desespero...?

Te pergunto, querida Mãe:

Para onde olhaste no instante derradeiro?

Teria sido para uma pedra inamovível,

A segurar papéis inúteis sobre alguma mesa?

Ou, quem sabe..., para uma borboleta...

Que se debatia com sofreguidão contra uma vidraça...

Tentando, inutilmente, fugir daquele ambiente cáustico

onde a morte exalava seu cheiro acre e modorrento?

Tentando atingir... quem sabe...?

O lindo jardim que tanto ansiava,

e que, reluzente, a aguardava

para além das visões vítreas da existência...?

 

O que há no último olhar...?

Querido e saudoso Pai...

Altivez...? Paixão...? Resiliência...?

Ou, quem sabe..., a alegria, a perspectiva

de novos mundos finalmente conhecer...

e de deixar, enfim, este tedioso porto chamado vida?

 

Diga-me, querido Pai...

Onde pousaste teu último olhar...?

Teria sido, talvez, em um “insensato” besouro...?

a lutar em vão contra uma lâmpada,

Como se quisesse, alucinadamente, a luz penetrar...?

Ou, quem sabe..., para algum bicho rastejante

que tentava escapulir incólume e sem sequelas

de pés incautos e despreparados...?

 

Eu comparo a dor do último olhar à dor do primeiro...

São quase idênticos...

Em ambos há medo e pavor do desconhecido.

Em ambos, luz... sombras... e uma dor imensurável...

Uma sensação análoga à que teve Lázaro ao voltar à vida.

 

O que haverá no meu último olhar?

Dor...? Remorso...? Desânimo...? Penitência...?

Quem sabe a relutância em assumir tantos erros cometidos

e a vergonha de meu acanhamento pusilânime diante da vida?

 

A mim... Se me fosse permitido escolher,

onde pousaria meu último olhar.

Escolheria pousar estes meus desvanecidos olhos...

naqueles olhos que deram sentido à minha existência,

naqueles olhos que desvendaram para mim

o sentido do amor, da reciprocidade e da entrega.

E poder, no extremo instante, dizer-lhes:

“Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
assim! de um sol assim!...” *

                                        

                                                             De Hyppólito (Elsio Poeta)


 *Olavo Bilac - In Extremis (Excerto)

 

Poema escrito em 2025


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Vade Cum Deo Matre...

                                                                                               






                                                                                 


Vade Cum Deo Matre...


Escrito em meados de 2002, por ocasião

da morte de minha querida mãe.



“Seja a terra degredo, o céu destino.”

Antero de Quental

“Na hora da partida, o que se leva não é bagagem, é o olhar que ficou”

João Guimarães Rosa


 

Esta noite sonhei contigo,

 Estavas bonita, feliz e toda arrumada.

A tua roupa elegante cheirava a muda nova,

Tinhas os olhos calmos e a face rosada.

Pareceu-me mais jovem. Bela...

como se fosse outrora...

Andavas de um lado para o outro,

e, impaciente, me perguntavas a hora.

 

Parecia que tinhas pressa de partir,

irias para longe viajar.

E a aurora não surgia... e o tempo não passava...

havia angústia no esperar.

A todo instante, ansiosa...

pela janela aberta espreitavas.

E aquele algo... que não vinha...

e aquela coisa...que não chegava...

 

De repente... Em meio ao silêncio, um ruído!

Um carro em frente à casa estacionou.

Ele era alvo... lindo... reluzente...

um motorista, todo de branco, lhe chamou.

Olhaste para mim e então... falaste:

“Preciso partir... A hora é chegada.”

E foste saindo... calma... serena...

como por um zéfiro divino levada...

 

E eu fiquei ali parado... Os sentimentos eram dúbios,

um misto de dor e alívio em meu peito eclodia.

Tentava, atônito, entendê-los... mas as emoções,

em si próprias se perdiam...

Andei... Fui até a janela...

Queria, pela última vez, poder te olhar...

Vi que sua bagagem era enorme...

não conseguias, ela, no carro colocar...

 

 

E foi num pedido lancinante e cheio de cuidados

que, tendo a face em prantos, gritei:

Mãe... Não leve tantas coisas contigo...

Deixe-as... Eu clamei...

E, compreendendo-me, para mim sorriste...

e as malas, com denodo, colocaste no chão...

Partiste... sem daqui nada levar...

leve... tua alma, leve...teu coração.


                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)

 

domingo, 17 de agosto de 2025

O Despertar

 




                                                                                        





O Despertar

Poema escrito em meados de 2002, por ocasião

da morte de minha querida mãe. (continuação de "Vade Cum Deo Matre")


“Adormeceste para sempre,
baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente,
florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...”

Da Costa e Silva

 

E despertei... E como foi duro, do sonho despertar.

A mente cansada, tentando em vão as ideias conjugar,

abri a janela e vi que o sol nascia...

Indiferente a toda dor... cinicamente ele nascia...

E quanto mais no céu ele brilhava...

mais escuridão em minh’alma havia.

 

Lembrei-me, com um doce amargor, dos tempos idos,

e chorei por ver tantos sonhos e crenças destruídos...

Um desânimo profundo apoderou-se de meu corpo,

em nada mais acreditava... na vida, no amor e até em mim.

O ser humano, em desespero, culpa tudo nesta ansiedade,

até Deus... até o destino... até a eternidade...

 

O dia foi longo e perverso... a noite tardou a chegar...

abri a janela novamente e vi minha dor misturando-se ao luar...

Velhos remorsos vieram à tona, cenas do passado vinham e voltavam

num torvelinho cruel de imagens antigas...

Lembranças guardadas no cofre das recordações.

Olhei para o céu e, entre as estrelas... juro... vi teu rosto... Coisa insana!

Talvez a lamentar a minha pobre e execrável condição humana...


                                                                                                          De Hyppólito (Elsio Poeta)

Templum Vastatum


                                                                  








Templum Vastatum

 

“Afinal, é o costume de viver
que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
o hábito melancólico de ser...”

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...

Raul de Leoni – Decadência (excerto)

 

Caminhando pelo mundo, sinto-me um ser de outro planeta,

um alienígena, um zumbi saído de alguma catacumba sinistra,

um foragido que vagueia sem rumo pelas ruas,

preso ao pesado grilhão dos “tempos idos”.

 

A mim me parece que já não faço parte desta turba insana,

que segue pela rua, em frenéticas volições inconsequentes,

que segue cantando, convulsiva e louca,

a nênia repetitória da miséria humana...

 

Tudo que falo soa inútil, retrógado, inconsistente...

O que penso não importa, o que acho...? Tanto faz...

Sou apenas uma ameba transitiva... um aluado... um demente...

que vê o mundo como se fora um templo inglório,

promíscuo e decadente.

 

Quisera eu, como um “Sansão cego e ensandecido”,

incólume este templo penetrar,

e ao abraçar seus alicerces carcomidos...

ver toda essa tragédia humana sobre mim

desmoronar...!

                                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito em 2025



sábado, 16 de agosto de 2025

A Vida... O Vento... A Mediocridade... A Morte...


                                                                                   





A Vida... O Vento... A Mediocridade... A Morte...



“Não é porque estamos caminhando em direção à morte

               que precisamos sucumbir à mediocridade.”

Nyad (Filme)


“E a Vida passa... efêmera e vazia:
um adiantamento eterno que se espera, 
numa eterna esperança que se adia...”

                                          Raul de Leoni - Legenda dos dias (excerto)

 

A alegria é uma tristeza que se distraiu.

A felicidade, uma dor que um sorriso camuflou.

A vida, uma longa expiação,

na mesmice das horas a perguntar

se valeu a pena vivê-la...!

 

A morte vai te seguindo a cada passo,

a te espreitar sedenta pelo teu sangue...

E a dor...? O que ela faz com os teus dias...?

Como ela pode assim pisar em cada sonho teu...?

Como pode assim te minar... te cercar... te subjugar...?

 

Querer sorrir é como tentar acender uma vela na escuridão;

o vento que vem do passado anima a chama;

e iluminado te sentes...

 

Mas esse vento, que acende e alimenta o fogo,

é o mesmo que logo após o apaga...

é o mesmo que transforma toda tocha em cinzas,

 

é o mesmo que te arrastará para teu final doloroso e inevitável,

e que sepultará na insignificância banal de tua duração terrena

a mediocridade tosca de toda tua existência.


                                                            De Hyppólito (Elsio Poeta)


Poema escrito no início dos anos 2000


Confissões Vetustas

 





  





Confissões Vetustas 


Quando estamos velhos, não caminhamos para o futuro,

só marchamos firmemente para o passado.

Pois... nada do que há além do nosso tempo nos encanta ou nos seduz.


                      

Quando percebemos que estamos ficando velhos...?
Não...! Não é pela imagem no espelho refletida,
pois com o passar do tempo nem prestamos mais atenção nela...

Não...! Não é a dor nos joelhos, nas costas e nas juntas...
pois com o passar do tempo nem as sentimos...
Vamos nos acomodando a elas...

Não...! Não é a irritação, a falta de paciência...
a vontade de consertar o mundo do nosso jeito...
e nem o desespero de ver que isso em nada resulta...

Percebemos que estamos ficando velhos
quando começamos a nos emocionar com coisas “bobas” ...
tais como: um certo aperto no peito

quando vemos nossos filhos com a mochilinha nas costas,
indo para a escola e, pouco a pouco, perceber...
a imagem deles desvanecendo-se lentamente na distância...

Pois nos parece que são eles que partem...
quando na verdade...
somos nós que estamos partindo.

Percebemos que estamos velhos
quando notamos quanta coisa boa não aproveitamos,
quanto bem deixamos de fazer...

Quando sentimos o passado
longe demais para tocá-lo;
o futuro distante demais para alcançá-lo;
e o presente perto demais para senti-lo...



                                                                De Hyppólito (Elsio Poeta)

Poema escrito em 30/11/2023 (60 anos)


domingo, 23 de março de 2025

Se pudesse hoje escolher...

 

Se pudesse hoje escolher...


Dedicado a Andréa, minha companheira,

a mulher que me ensinou o significado do amor e da vida.

 Por ocasião do nosso vigésimo terceiro aniversário de casamento.


Se pudesse hoje escolher...

Não torceria para o semáforo abrir-se logo...

para que a hora do intervalo não demorasse tanto chegar...

para que o elevador descesse mais rápido...

para que aquele vizinho chato parasse de falar...

para que aquela dor de dente parasse de doer...

Se pudesse hoje escolher...

escolheria percorrer os mesmos caminhos,

trilhar as mesmas ruas, sentir as mesmas dores...

e ter, no final de tudo isso, a certeza de que encontraria

alguém como você.

 

SE

(Inspirado na célebre canção de David Gates "If")

 

 

Se uma imagem vale mais do que mil palavras,

então por que eu não poderia pintar você...?

Com palavras jamais conseguiria descrever a pessoa que você é...

Eu poderia tentar...

Mas seria igual tentar lançar ao mar mil navios ao mesmo tempo.

 

Não há mais ninguém dentro de mim, a não ser você...

Você é tudo que me restou...

E enquanto meu amor pelo mundo

pouco a pouco vai se extinguindo...

você vem e traz para mim de volta a esperança.

 

Se eu pudesse escolher estar em dois lugares ao mesmo tempo,

eu escolheria estar com você no hoje e no amanhã,

e permaneceria para sempre ao seu lado...

 

Se o Mundo parasse lentamente de girar...

e a vida, dentro de nós, fosse aos poucos se acabando,

eu estaria até o último momento com você,

e enquanto, uma a uma, as estrelas fossem se apagando...

eu e você voaríamos pelo espaço e bem distante de tudo,

quem sabe...? Nos transformaríamos em dois astros...

e ficaríamos no céu a brilhar para toda eternidade.

 

                                                                                      23/03/2025

                                                                                       De Hyppólito (Elsio Poeta)