O CLAMOR DE JÓ
“Apodrecia Jó no
muladar. No entanto,
não lhe queimava
a língua o fogo de uma praga
contra quem o
prostrou na terra de Hus, e, o manto
roto, deixou-o nu
e o corpo, aberto em chaga…
Mas a mulher de
Jó pensava, com espanto,
como podia ser
que, da virtude em paga,
ele sofresse,
mudo e só, represo o pranto,
a injustiça do
céu que nos abate e esmaga…
Disse-lhe, então:
— “Amaldiçoa a Deus e morre!”
Wenceslau de Queiroz
Sentado sobre cinzas,
solitário...
Jó contemplava em prantos o
firmamento.
E eis que viu um bólido
flamejante
surgir no céu, precipitando-se
entre astros
e viu ele sumindo, quem
sabe...? Num oceano distante....
E Jó lembrou sua queda
formidável...
outrora rei... astro... e hoje
pó...
Nada mais havia nele que o remetesse
ao antigo esplendor.
Ele se misturou à telúrica
matéria,
agora ele era pó e em pó se
assentava.
Os filhos lhe foram tirados,
não mais o alegravam.
A esposa o incitava a
blasfemar.
Os amigos que lhe restaram
só tinham palavras para lhe
condenar.
E Deus...? Por que se
ausentara...?
Deus era bom...! Deus era
pai...! Deus era justiça...!
Por que Deus havia de o deixar
assim...?
E mais uma vez seus olhos
cansados
aos céus se ergueram...e então
bradou...
Acaso não tinha sido ele
justo...?
Acaso não havia amado a
todos...?
“—Contemple... Ó Deus...! Em
tua grandeza...
a minha fragilidade... a
minha fraqueza...
o meu corpo de chagas todo
coberto.
Mas...! Antes de tudo... Ó
Deus...! Contemple...
A minha alma...
Há nela uma chaga muito mais
densa.
A chaga da dúvida... A chaga
da descrença...
Restitua-me os valores em
que acreditei...
Restitua-me a fé que tinha
em tua justiça...”
E Jó, assim nesse estado,
quase que irracional...
não sabia...! Que ele era
apenas uma vítima divina...
de uma aposta que ouve entre
o Bem e o Mal...
Não sabia também, o paciente
justo:
que enquanto seu clamor
ecoava pelo mundo ao léu...
Deus ria do poder do
inferno...
e o Demônio zombava do poder
do Céu. *
*Inspirado nos dois últimos versos da última estrofe do poema “Doutor Fausto”, de Wenceslau de Queiroz.
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito no início dos anos 90

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