Quatro Estações
“O tempo não passa; ele nos atravessa.”
Clarice Lispector
A infância é o único tempo em que o mundo cabe inteiro na mão.
Rubem Alves
Já vai longe a primavera… os campos verdejantes…
Onde a criança brincava. O céu azul… inebriante…
Flores brotando, ramalhetes de sonho infantil
perfumando de alegria a crença pueril.
Tempo de paz… um lago calmo… rara beleza…
Os frutos doces, cantigas de roda, “as malvadezas”.
O horizonte vasto, sem fronteiras.
A mãe, zelosa, dando as broncas corriqueiras.
Os dias eram longos. As alegrias, também…
O choro era breve… nosso riso ia mais além…
Tínhamos esperança e dos sonhos a amplidão.
E tudo isso cabia na palma de nossa mão.
Já vai longe o verão! Campos em chamas…
Onde o jovem se abrasa. Ígneo, o céu se inflama.
Paixões brotando em buquês, desejos juvenis
perfumando o ar libidinoso de arroubos e desvarios.
Tempo do amor…! Um mar em fúria…! O templo da beleza…!
Corpos em êxtase, canções promíscuas, “as safadezas”.
O horizonte amplo, sem fronteiras.
E a mesma mãe, ciosa, a nos falar “asneiras”.
Os dias eram intensos. Os prazeres, também…
O pranto efêmero… nosso gozo ia mais além…
Tínhamos vigor, a energia fluía de nossas mãos.
E toda essa força cabia em nosso coração.
Já vem chegando o outono…! Campos pelo vento açoitados.
Onde o homem cisma. Gris, o céu parece desbotado.
Flores murchando, o medo brotando em buquês…
Um cheiro agridoce a nos encher de dúvidas e porquês...
O tempo é rápido…! Um mar que oscila na incerteza…!
O corpo se exaure na instável correnteza.
O horizonte vai se fechando. Ao longe… as fronteiras.
E a mãe, ausente, suas palavras sábias e verdadeiras.
Os dias passam céleres. As venturas, também…
O choro prolonga-se… a dor vai mais além…
O vigor se esvai… escapa pela nossa mão…
E toda essa angústia cabe em nosso coração.
O inverno se aproxima…! Campos de geada cobertos.
Onde o velho decai. Cinéreo o céu, o pôr do sol deserto…
Folhas secas num ramalhete de flores estioladas.
Um cheiro acre a perfumar a alma cansada.
O tempo para… um pântano estagnado na imundície…
Os frutos bichados, nênias ao vento, “as caduquices”.
O horizonte não mais se avista. Superamos todas as fronteiras.
A mãe saudosa chama! É a viagem derradeira…
Os dias passam lentos. A agonia, também…
O riso se estanca… o tédio vai um pouco mais além…
Os tempos idos trazem luz e trevas ao coração.
E tanta vida, longe, fora do alcance de nossa mão…
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito em 2003

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