PREFÁCIO

 

A minha melhor poesia é aquela que nunca escrevi

e que talvez nunca escreverei.

Morrerá silenciosa,

como uma lágrima seca dentro de mim.


                                                                De Hyppólito

 

domingo, 17 de agosto de 2025

O Despertar

 




                                                                                        





O Despertar

Poema escrito em meados de 2002, por ocasião

da morte de minha querida mãe. (continuação de "Vade Cum Deo Matre")


“Adormeceste para sempre,
baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente,
florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...”

Da Costa e Silva

 

E despertei... E como foi duro, do sonho despertar.

A mente cansada, tentando em vão as ideias conjugar,

abri a janela e vi que o sol nascia...

Indiferente a toda dor... cinicamente ele nascia...

E quanto mais no céu ele brilhava...

mais escuridão em minh’alma havia.

 

Lembrei-me, com um doce amargor, dos tempos idos,

e chorei por ver tantos sonhos e crenças destruídos...

Um desânimo profundo apoderou-se de meu corpo,

em nada mais acreditava... na vida, no amor e até em mim.

O ser humano, em desespero, culpa tudo nesta ansiedade,

até Deus... até o destino... até a eternidade...

 

O dia foi longo e perverso... a noite tardou a chegar...

abri a janela novamente e vi minha dor misturando-se ao luar...

Velhos remorsos vieram à tona, cenas do passado vinham e voltavam

num torvelinho cruel de imagens antigas...

Lembranças guardadas no cofre das recordações.

Olhei para o céu e, entre as estrelas... juro... vi teu rosto... Coisa insana!

Talvez a lamentar a minha pobre e execrável condição humana...


                                                                                                          De Hyppólito (Elsio Poeta)

Um comentário:

Anônimo disse...

Que texto doloroso e verdadeiro, Elsio. O contraste entre o sonho reconfortante e o despertar cruel, com o sol nascendo indiferente, é de cortar o coração. A parte em que você compara a dor do último olhar à do primeiro é uma das mais fortes que já li sobre luto. Você consegue transformar sofrimento em poesia sem cair no piegas. Muito bonito. Força aí, poeta.