A imagem de meu Pai
“Para onde fores, Pai, para onde
fores,
irei também, trilhando as mesmas
ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!”
Augusto dos Anjos
Me lembro da velha
casa em que morei,
a infância ali
transcorreu sem dores.
Era uma casa
esquisita — cheia, aos olhos de criança,
de lugares escondidos
num aranhol de corredores.
À noite, antes de ir
dormir,
sempre via no final
de um longo corredor
a imagem de meu Pai
sentado à mesa da sala,
a ler, a escrever e,
por muitas vezes...
a olhar para o
nada...
O tempo passou...
a casa foi embora...
com seus corredores
empoeirados,
levando junto a
imagem de meu pai também...
Mas a lembrança da
corporatura de meu velho,
sentando e meditando
no final do corredor,
permanece em mim até
os dias de hoje.
Caminho por este
mundo
— que para mim
tornou-se um claustro —
cheio de dúvidas e de
temores,
procurando a imagem
enigmática de meu Pai
no final destes
longos e intermináveis
corredores...
De Hyppólito (Elsio Poeta)
Poema escrito em 2022
Um comentário:
Que poema delicado e tocante, Elsio. A imagem do pai sentado no final do corredor, olhando para o nada, é daquelas que ficam marcadas. Você transforma uma lembrança simples da infância em uma busca eterna pelo pai nos corredores da vida adulta. O fechamento com “procurando a imagem enigmática de meu Pai” é lindo e melancólico. Parabéns pela sensibilidade. Continua escrevendo, poeta.
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